21 de abril de 2017

A FORÇA DAS NOSSAS RAÍZES


       
                           - Tais Luso
Tantas são as notícias de falcatruas bilionárias que saqueiam nosso país, que não tem como viver cem por cento em paz. Esperanças se esvaem. Talvez o sonho fique para outras gerações. Como esquecer desse pesadelo se chegam a nós centenas de notícias das mais estapafúrdias? Buscamos certezas, mas não existem certezas. Queremos continuar a morar na nossa terra onde plantamos nossas raízes.
Nos meus 19 anos (já vai muito tempo), fui para Alemanha fazer um curso e lá fiquei dois meses, março/abril. Conheci um país muito desenvolvido. Aquele povo exalava amor pelo trabalho, exalava honestidade pelos poros. Fiquei fascinada pelo que vi, pelo que compreendia naquela época. Não havia cobrador nos bondes, nas bancas de jornais, não havia desconfiança. Ao colocar o pé fora da calçada, os carros paravam para que eu atravessasse. Pensei: que gente educada! Ao chegar no Brasil, fui fazer o mesmo, poderia haver a mesma conscientização no meu país... E por pouco não fui atropelada ao querer atravessar a rua; o taxista botou a goela para fora do vidro e soltou um fdp – educadíssimo!  Mas hoje já param. Nesse quesito melhoramos. 
Contudo, confesso que quase morri de saudades do Brasil. Lembro da minha felicidade ao retornar e entrar no espaço aéreo brasileiro. Havia pensado algo macabro... 'Se esse avião cair, morro feliz, morro no meu país!'
Essa é a força das raízes! E nunca esqueci o tanto que meu pensamento foi verdadeiro. A saudade explodiu no peito, o patriotismo exacerbou. E lágrimas escaparam.
Como falei no começo, nosso país foi saqueado, humilhado, o único material que temos disponível chama-se esperança em algumas de nossas Instituições, na temida Lava Jato, e nos homens honestos. E um dia, quem sabe, teremos um outro amanhecer.
Espero por um país mais íntegro, mais justo, mais humano. Que tenha corretivos. Que tenhamos leis fortes, que desapareça a impunidade. Não quero pensar, um dia, que o crime compensou.


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14 de abril de 2017

O QUE SERÁ UMA PESSOA CHATA?

James Ensor (daqui)


     - Tais Luso
Ontem, com tanta coisa para fazer, andando meio pensativa, olhando para tudo e não enxergando nada, apressei o passo para pegar o sinal aberto aos pedestres. Mas logo senti uma mexida na minha bolsa...  putz, era aquela chata, brincando de assalto, tentando se passar por ladrão de celularQue calvário.  Alegria falsa no encontro: dois beijinhos pra lá, dois pra cá... Mas aprendi a não descartar um chato, às vezes eles têm serventia. Quando alguma coisa me aborrece, o encontro com um chato tem seu valor, eles me levam à muitas reflexões, e ao desgrudarem me deixam a certeza de que a vida é maravilhosa. Fica em mim a dimensão exata do que é a paz.
Uma das coisas mais difíceis não é pensar em me atirar de paraquedas ou despencar de Asa Delta. É conversar com um chato. Ele gruda em você, lhe pega no braço, lhe toca no ombro, empurra, cutuca a cada 10 segundos. E cospe; o chato fabrica muita saliva pela ansiedade de ter nossa atenção. O chato é íntimo - sempre! Tenho a sensação de que vou explodir. E já começo a me coçar... Fico vulnerável e nervosa!
Você reparou como o chato é festeiro? O infeliz gosta de todas as festas do mundo, e não tem constrangimento em se convidar a lhe fazer uma visita. Exatamente: ir na sua casa num fim de semana! E o pior é que aparece! O negócio dele é  interagir. Coisa de louco.
A pior coisa do mundo é um chato num carnaval de salão: o infeliz pula e se sacode em cima de você! Quer enturmar na sua mesa e fica numa euforia inigualável. Muita alegria incomoda.
Chatos são simpático demais. São espaçosos e inconvenientes, despejam emoção e alegria na medida errada: é aquela criatura que faz um berreiro num velório, é íntimo do defunto. Ainda não descobri qual a razão da coisa. Mas chego lá. Um dia descubro.
O chato sabe de tudo: se começamos a falar em viajar, ele está pronto a nos fornecer o roteiro dele. A mesma coisa acontece com filmes, teatro, restaurantes. O ponto forte do chato é conhecer tudo e todos. Ser catedrático e deixar em nós uma certa nesga de ignorância! 
Dias atrás, comentei com uma chata, que eu só conseguia escrever no silêncio ou no máximo com música instrumental tranquila, doce...
- Credo... você é parente de Matusalém? Tem de se modernizar, amiga!
Tudo que dissermos, o chato discorda: ele tem uma outra opinião sobre tudo. Ele é a unanimidade!
Não sei a razão, mas quando encontro um chato, quando ele começa a contestar tudo que falo, alguma coisa se apossa de mim, e me vem a ideia mais primitiva do ser humano... 
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7 de abril de 2017

RETRATOS DE FAMÍLIA




                       - Tais Luso
Há muitos anos ouvi uma frase: Família só é bonita em porta-retratos! Na época achei engraçada, mas não passou disso. Hoje, porém, a vejo de outra maneira, além de continuar hilária, o inventor acertou na mosca!  Também vejo, cada vez mais, um núcleo desestruturado e rancoroso. E haja jogo de cintura para se sair vivo de uma intriga familiar. Não existe nada tão complexo quanto Família! Mesmo porque a base de tudo é o ser humano. E se o ser humano piorou, consequentemente o mundo familiar - em parte -  piorou. O convívio mais parece uma pintura surreal, quase incompreensível para quem vai chegando...
Porém não quero dizer que não exista o amor familiar; ele está presente, mas não o suficiente para manter as pessoas em harmonia por muito tempo. Primeiro é o eu. E sobra pouco pra dividir. No primeiro tropeço, começa a desintegração.
Sim, aprendi, desde pequena, que a família é a base de uma sociedade saudável, e até concordaria, mas se saudável fôssemos. Estamos cada vez mais desorientados, e portanto  mais incapacitados para sentimentos. Para amar. Porém, não generalizo! Falo de famílias 'doentes'.
Nossa espécie está mais violenta do que nunca: tudo já aconteceu. Não sei qual surpresa pode estar a caminho, talvez a explosão do planeta. E não me surpreenderia. Nossos caminhos podem estar cheios de flores, mas também repletos de espinhos dos quais cultivamos com esmero, espinho por espinho. Existem algumas figurinhas que adoram cultivar ódio, é como se fosse um troféu! Seguindo as mídias, podemos constatar as últimas atrocidades: a mãe psicopata que jogou a filha no lixo; do pai que atira a filha pela janela; do filho que esfaqueia a mãe para obter droga; da mulher que envenena o marido; da mãe que vende a filha para ser prostituída; da filha que mata os pais com olho na herança, da mãe que mata o filho drogado... Fora quando  parentes do segundo escalão entram na jogada para aumentar a festa. Muito frequente.
Que coisa mais maluca! Enfim, uma parentada ordinária que não se sabe de onde surgiram. Isso se chama família? Mas é compreensível, pois na primeira família do mundo, um irmão matou o outro. Então nada a duvidar. E não são poucas as famílias que se atracam o dia inteiro.
Sempre teremos no nosso núcleo, uns parentes que farão o inferno astral dos outros, cooperando para a formação e instabilidade dessa base social.
E é nesse núcleo que nasce a inveja, a avareza, o ódio, o egoísmo, a intolerância, a arrogância...e por fim estará formado o caráter dos mais novos.
Mas é no núcleo familiar que aprendemos a armar confusões por coisas insignificantes; é no núcleo familiar que crescemos vendo as primeiras desavenças entre pai e mãe; é nesse núcleo que ficamos intolerantes; é no núcleo familiar onde começam nossas carências afetivas. E é no núcleo familiar que aprendemos a querer o mal do outro. É nesse núcleo que se formará  o ser humano.
É nesse núcleo - no término do casamento - que os filhos são colocados na linha de combate e atingidos pelos atos de vingança de seus pais. E depois dê-lhe terapia nos anjos. Que instituição é essa que o amor não sobrevive ou não se multiplica?
Família deve ser vista sem máscara e sem verniz. Se for boa e saudável, devemos reconhecer, exaltá-la. Será exemplo sempre. Se for desestruturada, por que não falar? Motivos cabem para averiguar de onde e porque desse mal. Quais as razões para tantos desentendimentos e crimes familiares?
Por isso que a frase lá de cima: Família só é bonita em porta-retratos, até procede. Nada mais de engraçado. Nele, as famílias ficam lindas e sorridentes para serem vistas pelas gerações futuras:
Este é o fulano, filho do sicrano e neto do beltrano!
Maraviiiilha!! Que linda família, que harmonia!!
São retratos de famílias num mundo conturbado e decadente em sentimentos.

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31 de março de 2017

UM ‘ADEUSINHO’ QUE CUSTOU CARO



                 - Tais Luso
 Não me debato mais nas minhas  noites de insonia, aprendi a me beneficiar desse estado de agonia. Olho no relógio e pluft – o infeliz é pontual, 3 horas da madruga! Aproveito para rememorar as frias que entrei. E dobro a noite na pauta da semana.
Foi num mês de janeiro. Não lembro do ano, mas faz tempo. Estávamos, eu, Pedro e nossos filhos – ainda adolescentescom as malas prontas para Camboriú, uma bela praia do Estado de Santa Catarina. Fui dirigindo pela Freeway. Os filhos um pouco apreensivos, com medo de que eu aprontasse mais uma das minhas.
No início da estrada, vi  um guarda rodoviário de braços levantados a balançá-los com vigor. Achei o gesto dele muito cordial, mas estranho, um pouco descoordenado para desejar boas férias, não precisava exagerar. Parecia aqueles bonecos de posto de gasolina com os braços voando para chamar a atenção. Mas como tudo era festa e sou educadinha, abri o vidro e abanei, mas sem diminuir a marcha, não lembrei desse detalhe...eu poderia ter diminuído...
Adeusinho... Obrigadaaa!!!
E continuei faceira, com pé de chumbo pela estrada afora...
Confiem em mim, turma!
E o nosso cachorro a mil, latindo faceiro da vida! O Pedro quase dormindo, exausto com as inúmeras malas, sacolas, a mala do  cachorro, a cama do cachorro, os brinquedos do cachorro... Tudo arrumadinho.
Uns 20 quilômetros, do ponto de partida, sentimos o fim do mundo desmoronando atrás de nós! Era a polícia rodoviária com sirene aberta e piscando  loucamente.  Fiquei muito conturbada, odeio barulho de sirenes, sou de família tranquila.  Olhei pelo retrovisor e fiz sinal para que passassem. Passem logo!! Passaram na frente e gesticulavam nervosos para que eu encostasse o carro. Quase vomitei de nervosa, mas encostei o carango. Ué, será que furou o pneu?
Vieram dois policiais,  com cara de ‘poucos amigos’.
Sua Habilitação, por favor!
Haháaa (pensei)... será que querem me pegar sem Habilitação?  Peguei a carteira, mas antes, dei uma espiada na foto, que coisa horrorosa, tenho trauma de foto 3x4.
Vou lhe multar: primeiro, porque a senhora não parou quando meu colega lhe fez sinal no quilômetro 20; e segundo, pelo excesso de velocidade.
Mas seu colega nos acenou desejando boa viajem, eu acenei agradecendo!!
Não, Senhora, ele lhe fez sinal para encostar o carro. A senhora não obedeceu. 
O policial  ficou me olhando… Achei melhor eu ficar quieta.  Eu tinha visto o aceno sobre um ângulo diferente: um desejo de boa viajem! Passei o carro para o Pedro,  ainda bocejando, e encerrei a história com uma boa multa. Tivemos a sorte de não ficarmos detidos.  Seguimos, quietos, aquilo foi um balde de água fria. Mas aprendi que polícia rodoviária não dá adeusinho pra ninguém! Quando acenam, é para parar, mesmo que o aceno seja meio desconcertado. Cada um...cada um!

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24 de março de 2017

SOBRE AS SEPARAÇÕES

                                 - Antonio Varas de La Rosa / 1954 Madri - Espanha


          - Tais Luso
Já escrevi sobre vários sentimentos, e hoje trago o sentimento preferido da criação poética, o Amor: um sentimento que traz a promessa de felicidade enquanto vida houver;  uma cumplicidade prazerosa, um companheirismo sem precedentes.
Amar é compartilhar das qualidades, mas também ser mais condescendente com os defeitos do outro. Não há nada no mundo que flua mansamente. Nem o amor. Sentimentos precisam ser cultivados, as exigências são muitas. Isso me leva a pensar nas separações que tenho visto. Meu Deus, como o ódio e o amor estão próximos! As separações se dão quando o amor cessa. E aí, aparecerão seres irreconhecíveis:
 "Como  pode? Que filho da mãe! Nos encontraremos na justiça! O apartamento e o carro são meus, vá morar na casa da sua mãe…" E assim caminha o verbo. 
As separações se dão de inúmeras maneiras, algumas inusitadas com o palavreado chulo que sai das bocas inconsequentes. Que coisa mais animalesca!
 E tanto faz o sotaque ser carregado, cantado, chiado ou numa voz aveludada. A destruição é a mesma, o sentido é igual. Não há resquício de refinamento. A harmonia entre as famílias do marido e da mulher não existe mais. Os amigos, antes comuns, agora dividem-se. Os telefones entram em colapso com todo o pelotão colocando mais lenha na fogueira.
Os filhos, que nada têm a ver com as maluquices e desencantos dos pais, são as primeiras vítimas da história. Esses inocentes passam a viver num burburinho de hipocrisia e rancor. As famílias passam a medir forças. As mulheres têm por norma se apoderarem dos filhos como se fossem só delas. Esse jogo é sujo, tanto quanto os pais se absterem ao sustento dos filhos.
Mas o caótico se vê na hora da divisão dos bens: o maior sonho é deixar o 'ex' depenado, sem nada. As famílias – paterna e materna – que antes se visitavam, que eram o elo amoroso das crianças, já se odeiam. Ninguém, nessas alturas, tem cabeça para resolver coisa nenhuma ou pensar no bem-estar dos filhos. Tudo vira guerra.
Homens e mulheres, portanto, cada um carregando sua fatia de culpa, cooperam para que a separação se torne um inferno. Atitudes assim jamais mudarão, homem e mulher não mudam quando as coisas os atingem; mudam suas posturas quando o barraco é na vida dos outros.
Mas o que me assombra é a rapidez com que o ser humano passa do amor ao ódio. Nessa hora até a poesia fica impotente. Nem ela consegue minimizar tanta sordidez. Já não há mais beleza. Então, só resta retratar a dor. 

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17 de março de 2017

CARNAVAL? NUNCA MAIS...



        -Tais Luso
Esse último Carnaval foi sofrido. E como! Eu fazia parte da Escola de Samba Beija-Flor, do Rio de Janeiro. Arrumei as malas e lá fui eu cumprir mais um desafio: fazer jus à confiança da Beija Flor, dessa vez, para sambar na Avenida, no chão - samba no pé. Uma gaúcha sambando? Teria uma gaúcha o tal samba no pé? Era tudo o que ninguém acreditava. Mas eu tinha.
Durante o ano fui algumas vezes ao Rio para os ensaios marcados. Um misto de orgulho, medo e ansiedade se apossaram de mim no grande dia do desfile. Meu coração pulava de alegria.
Ainda cedo, comecei a me arrumar. Aquela fantasia era linda, mas complicada. Muita pedraria pesada.
Várias pessoas me chamaram pelo celular para estar o quanto antes na concentração. Mas de jeito nenhum isso aconteceu, o Rio estava muito congestionado. E comecei a entrar em pânico, suava, taquicardia, irritação e nada do carro chegar. Meu nervosismo foi tanto que chamaram um médico do hotel, nessa época sempre tem um plantonista. Minha pressão estava em 19, o que não era bom. Tomei um calmante e um comprimido para baixar a pressão. Para desmaiar seria um passo, poderia acontecer a qualquer momento. Suava. Sei lá, levo as coisas muito a sério.
As lágrimas mancharam a maquiagem, e tive de refazê-la. Mais tensão. Meu Deus, eu tinha compromisso! Qualquer mulher ficaria orgulhosa e estaria na concentração duas horas antes, juntando-se aos outros integrantes. Desandei a chorar, o que piorou o quadro de indisposição. Tudo estava errado, tudo. Pensava em voltar para Porto Alegre.
Oito horas da manhã, o relógio despertou-me. Tirou minha angústia! Tentei contar ao meu marido o drama de não conseguir chegar à Avenida Sapucaí, na concentração da Beija Flor, mas não consegui. O homem não entendeu nada! Nada. E começou a rir...
- ‘Beija Flor?’ Você... sambando? Samba no pé? Hum...
Custou a entender. E a ironia deixou-me furiosa. Só sei que tive a mais perfeita sensação de realidade!
Penso não ser mais necessário dizer nessa crônica que não sou carnavalesca, não sei sambar, nunca fui numa Escola de Samba, nunca coloquei fantasia e não gosto de Carnaval – mesmo sendo a mais famosa festa do Brasil.
Passei os dias de Carnaval em casa, escrevendo, lendo e assistindo filmes.
E que me perdoe a Beija-Flor pelas manobras do meu inconsciente.


11 de março de 2017

NÓS ÉRAMOS FELIZES...



                 - Tais Luso
Nem tudo são flores, e para dizer que não falei dos espinhos, contarei algo sério, falarei daqueles que pouco se importam com o nosso povo.
Mostrarei como estamos vivendo em Porto Alegre,  no Rio Grande do Sul. Os outros Estados da Federação, por certo, vivem igual. Não tocarei em partidos políticos, nem em ideologias – não é mais necessário, o estrago está feito. Apenas quero mostrar como as coisas ficaram e esperar pelo milagre. E que cada um forme a sua ideia.
Há anos, éramos um povo muito feliz, a cidade de Porto Alegre era bela: povo hospitaleiro, bela arquitetura, Terra com boa cultura e conhecida tradição. Tudo caminhava mais ou menos tranquilo, dentro dos padrões, e os problemas eram governáveis. Tínhamos orgulho de tudo o que nos envolvia. Cresci brincando solta, fui uma criança feliz. Eu tinha orgulho de ser brasileira. Gaúcha.
Mas, e agora? Pois é, de uns 14 anos para cá a casa desabou, e agora o terror chegou ao seu ápice. E hoje somos um dos países mais corruptos. Bom, não? A propina anda solta. Espalha-se que nem chuchu em cerca. Só que tem um gosto  amargo, é indigesto. É corrosivo à Nação.
Todos os noticiosos das mídias escrita e falada contam as tragédias diárias – contam a verdade, porém isso está nos deixando doentes. O povo está doente porque vive com medo; medo do real. Medo do absurdo. Mas não há fantasia. Na minha cidade,  milhares de pessoas não saem mais à noite; muitas não andam mais de ônibus nem lotação porque esses são assaltados com frequência. A população foi desarmada, mas os bandidos... bem armados! Então ficamos à mercê, vulneráveis, presa fácil, porque o Estado não nos protege.
Salários congelados. Volta e meia professores entram em greve, policiais em greve, médicos em greve, Bancos em greve, escolas saqueadas. E Bancos diariamente explodidos e saqueados até nas cidades pequeninas do interior - aquelas com 20 mil habitantes que chamávamos de paraíso.
Centros de Saúde e hospitais invadidos. Tiroteios e balas perdidas. Mortes. Muitas. As pessoas morrem sem saber o porquê, sem saber de onde vem a bala. E a violência chegou às escolas entre professores e alunos. Ontem uma menina de 14 anos foi estrangulada por um colega, aqui, na Grande Porto Alegre, dentro do colégio. A violência se espalha.
Nossas casas têm grades e alarmes. Nunca se viu por aqui presídios com métodos de ressocialização. São escolas para crimes piores. A polícia prende, a justiça solta. E o povo entra em pânico. E vá entender as razões 'deles'.
Ao sofrermos um  assalto, o conselho das autoridades é de não reagir para salvar a 'pele': Entregue tudo! Adianta? Não, isso serve para fortalecer o outro lado. Matam-nos com tiro na cara. Muita violência. Até quando?
E ainda tem gente que fecha os olhos e ouvidos na tentativa de ser feliz. Parece que tudo vai bem, que tudo está azul da cor do céu...

   
                                                Porto Alegre / RS - Brasil
               
          


4 de março de 2017

TRAPALHADAS DO TEMPO




 - Tais Luso
Pois é, a gente vai vivendo, a vida vai passando, e cada vez mais aparecem pessoas que não reconhecemos mais. E as mancadas acontecem com mais frequência: de onde conheço esta criatura?
A pessoa sorri, vem falar... Que situação! E o clima do encontro, inevitavelmente cai. Minha tática é ficar enrolando até dar o clic na memória. Pergunto o que ela tem feito, se mora no mesmo lugar, como estão os filhos (que filhos?!), perguntas rápidas à procura de um indício.
- Quem é ela, pelo amor de Deus? - pergunto ao meu inconsciente.
Não posso dizer-lhe que o tempo passou e que não a reconheço. O tempo nos transforma, mas não quero ser indelicada.
Existem pessoas que ao envelhecerem conservam os mesmos traços; a fisionomia é a mesma: às vezes bem mais bonita, como é o caso de Caetano Veloso. Mudou para melhor.
Tenho uma tia incrível, a tia Isolda. Estávamos num supermercado, no recanto dos vinhos. Estava um pouco afastada dela, mas vi um senhor lhe fazendo uma consulta sobre os vinhos. Esse senhor estendeu-lhe a mão para agradecer a dica, e perguntou:
- Dona Isolda, a senhora não está me reconhecendo? Tia Isolda, mais do que depressa gritou para mim:
- Tais, olha só quem está aqui!! Assim mesmo, bem fingida e desnorteada (até então ela não tinha a mínima ideia de quem era o homem, e transferiu o drama para mim).
Consegui reconhecer que era o seu antigo vizinho;  reconheci pela boca! O homem tinha uma boca de peixe baiacu! Não tinha como esquecê-lo. Não sei o que acontece, mas quando reconheço alguém é pela boca ou pelos dentes! Acho que me daria bem trabalhando num necrotério. Sou atenta a muitos detalhes. Mas salvei a titia da enrascada.
Porém mais dolorido passei com minha melhor amiga de colégio que há muitos anos foi morar em Belo Horizonte. Casou-se e ficou por lá. Mas com os filhos já formados, a família resolveu voltar para Porto Alegre. E certo dia, numa confeitaria...
- Oiiii, Taiiiis!!! Como estás? Não estás me reconhecendo?
Fiquei olhando para ela, já meio transtornada.
- Pois é... Não me és estranha...
- Sou a Claudinha!
- Báh, trocaste a cor dos cabelos, como te reconheceria?
Putz, não colou, foi um desastre. Ficou um clima de constrangimento... A mulher engordou uns 30 quilos e dei a desculpa dos cabelos? Não consegui contornar, e me perdi toda. Quanto mais tentava acertar, pior ficava...
E meti os pés pelas mãos. Foi trágico. Não sei mais o que fazer...


25 de fevereiro de 2017

LIBERDADE !

     
                 - Tais Luso
Hoje vemos de tudo um pouco no quesito Moda, mas ninguém se incomoda. Então viva essa Liberdade! E que venham os jeans esquartejados e as blusinhas infantilizadas nas mulheres maduras; que venham os saltos altos com a descontraída calça Legging; que venham as mulheres saradas e musculosas! Que venham todas as manifestações de liberdade nas peles tatuadas das jovens bonitas. Mas, eu fora.
Que venham as diversidades da moda  que chegaram para aparecer mais do que as criaturas! Ando, caminho, procuro... Mas a moda atual não se importa com harmonia - mostrar a Grife,  interessa.
Virou moda, mostrar ao mundo, através das redes sociais, o que vestimos, o que comemos, o que bebemos, porque Grife é poder, é luxo. E ter poder é um status cobiçado desde a Idade das Cavernas.
Recebemos, através das mídias, um bombardeio de dicas: o que comer e o que beber. Para onde viajar, os mil lugares que ainda temos de visitar antes de morrer.
Somos vigiados e induzidos, pela nossa consciência, a comer muitos legumes e fibras numa refeição. Vejo pessoas com pratos enormes, com todas as saladas existentes nos bufês, uma montanha de legumes de todas as cores. Quanto mais colorido for nosso prato, mais saúde! Mas mostrar um prato com tanta comida é desolador. Me assusta.
Não faz muito que me empanturrei de saúde, e minha natureza me deu o troco. E aprendi a ter mais cuidado com as minhas escolhas. Com as misturas. Com o exagero que me oferecem.
Também é bom fugir dos anúncios que prometem uma beleza perfeita. Essa é uma meta inatingível. Mas sempre haverá um campo vastíssimo para consumirmos as grandes inovações. Aderir a isso ou àquilo - a moda tem força. E cada um que escolha sua tribo. 
Porém, com esperança traço meu caminho, faço minha modinha e que ela seja eterna enquanto dureMas o que conta na verdade é como se comportam e para onde direciono meus neurônios na medida em que vou mudando de idade... Que a natureza seja camarada, que me dê coerência, que me dê liberdade, mas rogo pela minha lucidez.
Que assim seja.

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21 de fevereiro de 2017

PEDIDO DE ADOÇÃO - ADÉLIA PRADO



Estou com muita saudade
de ter mãe,
pele vincada
cabelos para trás,
os dedos cheios de nós,
tão velha,
quase podendo ser a mãe de Deus
— não fosse tão pecadora.
Mas essa velha sou eu,
minha mãe morreu moça,
os olhos cheios de brilho,
a cara cheia de susto.
Ó, meu Deus, pensava
que só de crianças se falava:
as órfãs.



 Referência: Oráculos de Maio- ed Siciliano/São Paulo 1999. - pag 59
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Adélia Prado é um dos mais importantes nomes da poesia feminina brasileira do século XX. A escritora trabalhou como professora por mais de 20 anos antes de se dedicar à carreira literária.
Nascida em 1935 na cidade de Divinópolis, Minas Gerais, Adélia Luzia Prado Freitas é filha do ferroviário João do Prado Filho e de Ana Clotilde Corrêa. Com a morte da mãe, em 1950, Adélia escreve os primeiros versos. Depois, no ano seguinte, começa o curso de Magistério e passa a lecionar. Formou-se também em Filosofia anos mais tarde. Além de poeta é contista, romancista e cronista.
Casa-se em 1958 com José Assunção de Freitas, com quem teve cinco filhos. Nos anos 70, enviou seus poemas para o crítico literário e poeta Affonso Romano de Sant’Anna, que manda para Carlos Drummond de Andrade que sugere a publicação dos escritos de Adélia e que faz, inclusive, elogios à autora no Jornal do Brasil. Assim, o livro Bagagem é lançado em 1976 com a presença de convidados ilustres, como Juscelino Kubitscheck e Clarice Lispector. O coração disparado, de 1978, ganhou o Prêmio Jabuti.
Obras / Poesia:
A Lapinha de Jesus - 1969 - em parceria com Lázaro Barreto
Bagagem - 1976
O Coração Disparado - 1978
Terra de Santa Cruz - 1981
O Pelicano - 1987
A Faca no Peito - 1988
Poesia Reunida - 1991
Oráculos de Maio - 1999