10 de agosto de 2016

COMO SE MORRE DE VELHICE - Cecília Meireles





Como se morre de velhice
ou de acidente ou de doença,
morro, Senhor, de indiferença.

Da indiferença deste mundo
onde o que se sente e se pensa
não tem eco, na ausência imensa.

Na ausência, areia movediça
onde se escreve igual sentença
para o que é vencido e o que vença.

Salva-me, Senhor, do horizonte
sem estímulo ou recompensa
onde o amor equivale à ofensa.

De boca amarga e de alma triste
sinto a minha própria presença
num céu de loucura suspensa.

Já não se morre de velhice
nem de acidente nem de doença,
mas, Senhor, só de indiferença.

 - Cecília Meireles, in 'Poemas (1957)'


Descendente pela linha materna de família açoriana de São Miguel, Cecília nasceu em 1901 no Rio de Janeiro e faleceu em 1964. Seu pai, faleceu 3 meses antes de seu nascimento aos 26 anos. Aos 3 anos Cecília perde sua mãe. A tutela ficou com sua avó.

Com outras perdas familiares teve uma certa intimidade com a morte, onde aprendeu a relação entre o efêmero e o eterno. Apesar de tudo guardou boas recordações de sua infância.
Seguiu toda a carreira de professora primária, mas paralelamente desenvolveu intensa atividade literária e jornalística, escrevendo nos principais jornais da imprensa carioca.

Em 1938 lançou 'Viagem', conquistando o prêmio da Academia Brasileira de Letras. Em 1965, pós-mortem, a Academia Brasileira de letras concedeu-lhe o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra.

Foram 22 livros escritos. Seu primeiro livro de poemas foi Viagem, em 1939 - o livro que a consagrou, recebendo o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras. 'Ou Isto ou Aquilo' foi a última obra que Cecília publicou em vida. Entre as duas pontas estão Solombra - 1963, , Sonhos - 1950 - 63, e Poemas de Viagens escrito entre 1940 e 1964. Porém sua obra conta em torno de 22 livros.

 'Eu canto, porque o instante existe e a minha vida está completa.'




20 comentários:

  1. Que triste essa poesia e nada pior do que a indiferença, quando nada mais nos anima, nada entusiasma, nada faz sentir viva! beijos, lindo restinho de semana e bem viva,rs...chica

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  2. Essa tal indiferença
    Do século o pior mal
    Pior que dor e doença
    Dela se morre, afinal.

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  3. «Não sou alegre nem sou triste: sou poeta.»
    Gosto muito de Cecília Meirelles, como pessoa e como distinta Poeta
    da nossa língua.
    A minha mãe tinha os olhos claros parecidos, uma cor muito frequente
    nos habitantes das ilhas no início do século.
    Como está bem construído este poema que só aparentemente é simples!
    E como é tão atual!
    Parece que o mundo não evolui!
    Parabéns pela seleção e pela homenagem de muito bom gosto.
    Abraço, Taís.
    ~~~~~~

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  4. Taisamiga

    Adoro Cecília Meireles. Incluo-a numa onda de Poesia na nossa língua portuguesa de que constam Sophia de Mello Breyner Andresen, Florbela Espanca, Maria Teresa Horta e Natália Correia, todas do lado de ca

    A Poesia não tem lugar, não tem tempo, não tem oportunidade. Só tem Poesia...

    Repito: adoro Cecília Meireles. Ponto.

    Qjs do Leãozão

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  5. Lindo e triste, eis uma verdade que se diz em poesia, nada pior do que a indiferença, Cecília Meireles nos deu essa bela reflexão!
    Amiga Tais, sempre nos presenteia com ótimos textos!
    Amei ler!
    Abraços apertados!

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  6. Oi Taís
    Eu não quero morrer de velhice e estou caminhando pra ela.kkk
    Beijos
    no coração
    Minicontista2

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  7. Boa noite, queridda Taís!
    Gosto muito dela.... de seus escritos... o de hoje postado por vc é fenomenal!
    Bjm muito fraterno

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  8. Lindo!
    Cecília tinha o dom de dizer tudo com um sopro, de certa forma, com leveza e mão pesada.

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  9. Que maravilhosa, triste e muito verdadeira esta poesia!
    Para mim, não existe mal pior que a indiferença.
    Esta sim já contaminou o mundo.
    Adorei a escolha.
    Beijos, e um ótimo dia Tais!
    Mariangela

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  10. A doce Cecília! Fiz um texto sobre ela, onde descreve com profunda sensibilidade o haicai.
    Abraço, amiga Tais.

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  11. Valiosa partilha, Taís!
    A Cecília Meireles é a maior poeta brasileira, a sua
    expressividade poética e literária é única numa
    dimensão especial.
    Na lista dos poemas que eu adoro, tem vários dela.
    Ótimo final de semana para vocês!
    Bj.

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  12. excelente escolha, Tais.

    o meu universo poético - passe a presunção - é muito marcado pela Poesia de Cecília Meireles, a que sempre associo Sofia de Mello Breyner e Natália Correia. todas grandes e todas elas divinas.

    saudações cordiais.

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  13. No ano que esse poema foi feito nem tinha nascido. E já tinha-se esses questionamentos e angustia existenciais, claro, claro... More-se também de indiferença, congelado de tédio, entediado. Triste. Beijos, Tais.

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  14. Taisinha,
    Esse é mais um dos poemas de Cecília Meireles que aprendemos a gostar juntos, desde o dia que tu o leste para mim, num dia nublado de inverno, em Gramado, junto à lareira. Nas livrarias sempre estamos à procura de mais poemas de Cecília, e muitas vezes temos sorte. É sempre bom ler e reler essa poeta maior.
    Beijinho, daqui do escritório.

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  15. Cara amiga Tais, Cecília Meireles, já tem poesia no nome! Nome poético e musical. É sempre uma boa dica, uma boa lembrança.
    Um abraço. Tenhas um lindo fim de semana.

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  16. Esta autora entra con su indiferencia que puede matar igual que la vejez en un terreno muy sugestivo y moderno, muy adelantado a la épòca que le tocó vivir. Interesante de veras su biografía. Será muy díficil que encuentre ninguno de sus libros en la biblioteca. Ignoro si se ha publicado algo en España pero me temo que, por la época, será muy díficil.

    Saludos con el mayor afecto.

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  17. Morrer de indiferença. É daquilo que mais se morre hoje em dia...
    Cecília Meireles, nem é preciso dizê-lo, faz poemas de uma extrema sensibilidade. Foi bom lê-la aqui.
    Um beijo.

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  18. Cecília no fundo do fundo da alma humana.
    Belíssima triste partilha.
    Aprende-se e ainda assim não se blinda-se.

    Abraços Taís.
    Grato pela partilha.
    Bjs de paz amiga.

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  19. Querida Tais,li avidamente teu conto,fiquei comovida do começo ao fim,mas não consegui postar um comentário,e que feliz escolha tiveste ao postar este poema de Cecília Meireles...Realmente,a indiferença mata as pessoas,sufoca-as com a injustiça que esta causa...Meus parabéns amiga!

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  20. Gosto muito da poesia da Cecília Meireles. Tenho um livrinho com a obra poética.

    Um beijinho e um bom domingo:)

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Taís Luso