16 de março de 2014

REUNIÃO DE CONDOMÍNIO

Obra de Victor Hugo Porto



- por  Pedro Luso de Carvalho

É o marido que atende, contra sua vontade, ao toque da campainha. Não era seu feitio atender ao telefone, interfone e tampouco campainha. Quando isso acontece, sua mulher ouve sempre o mesmo argumento: "Você sabe que detesto ficar grudado nessas drogas".
Ele vai até o quarto e pede que a mulher atenda à porta.
Tem alguém lá na porta – diz irritado.
Como é que você sabe? – indaga a mulher.
A campainha tocou.
A mulher sai correndo em direção à porta. Chega esbaforida, depois de ter tropeçado no tapete e batido a perna na quina da mesa. Abre a portinhola e recebe uma rajada de vento. É o zelador do prédio.
Desculpe lhe acordar, dona.
Não me acordou, é quase meio dia...
O zelador entrega-lhe um envelope e pede que assine o protocolo de recebimento. A mulher assina na linha sobre o nome do marido.
Era o zelador – diz a mulher. – Ele deixou este envelope.
O homem abre o envelope e lê a convocação do síndico para uma reunião extraordinária.
No dia e hora marcados, lá estão alguns moradores na sala de reuniões. Não há quórum suficiente. Na segunda chamada, o síndico abre a reunião com quinze condôminos.
Boa noite a todos – diz o síndico. Vamos analisar três orçamentos para a pintura do edifício.
Quanto vai custar a pintura? – pergunta um homem, já curvado pela idade.
Nos orçamentos temos preços diferenciados, talvez possamos ficar com o mais barato.
E quanto é esse mais barato? – pergunta uma mulher. – Todos aqui sabem que o meu falecido marido deixou uma minguada pensão...
Eu também ando apertada – manifesta-se outra condômina. – Como vocês também sabem, o meu marido está desempregado a um bom tempo.
Então mande esse folgado parar de beber e procurar um emprego – diz a solteirona do prédio.
Isso não é da sua conta, mal educada. Por que você não procura um marido e deixa de encher o saco?
O síndico diz que todos devem contribuir para que a reunião corra com normalidade. "Temos que resolver o problema da pintura externa do prédio".
Vou ler aos senhores os itens que fazem parte do orçamento com o menor preço.
É bom que isso seja antes que comesse minha novela – diz a mulher vistosa, com as pernas à mostra.
A novela, meu Deus! – exclama outra moradora. – Eu não posso perder o último capítulo. – Se me dão licença...
Depois que a mulher deixa a sala, antes que se decida pela pintura, uma após outra, das nove mulheres, levantam-se e saem. Ficam na sala apenas seis condôminos.
O síndico mal recomeça a falar sobre os orçamentos quando os seis homens entreolham-se cúmplices, numa surda troca de ideias, e retiram-se com discrição.
Na sala fica apenas o síndico, com o olhar fixo nos orçamentos. Logo, diz para si mesmo: 
Eu é que não vou ficar plantado aqui, sem saber quem matou Odete Roitman!


Blog Veredas - aqui 

19 comentários:

  1. rssss, é bem assim! Trouxe para cá essa crônica deliciosa do blog de Pedro Luso.
    Reuniões de condomínio já são vistas como uma praga em que levam dois anos para decidirem algo. É a reunião do estresse, das discórdias e dos humores alterados. Fala-se de tudo que possa beneficiar a poucos interessados. É o exercício da política menor, a revelação dos interesses pessoais. Haja paciência. E faz tempo que conhecemos isso, não? Já temos experiência de sobra...
    Mas acho que valeu mais ter visto o final daquela novela!

    Adorei essa realidade contada com humor.
    Beijinho, Pedro!

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  2. Rssss...Muito legal e pelo menos assim escrita podemos achar graça, pois em geral é confusão, aumento de mensalidades e/ou chamadas extras! HAJA!!! beijos,linda semana,chica

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  3. Ainda bem que nunca tive condomínio, senão passava-me....e deixava
    cair o prédio, ou ........Ou o quê???? Devo estar a delirar...pois não deve ser nada fácil....Nem imagino....E então com a crise....!!! Por cá diz-se,
    que muita gente junta, não se salva.....todos,...há sempre os espertos....
    Abraço, extensível ao Dr Pedro

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  4. Reuniões de Condomínios é para se enfartar / fartar e nunca mais aparecer... ou morre-se ou desiste-se... pois "comum acordo" é o item mais difícil de se chegar... A crônica em questão retrata fielmente as que tenho participado... Mudaram-se as novelas... mas as reações são as mesmas... E, ainda há os que cochilam no fundo da sala!!
    Abraços.

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  5. Ha anos que não aprticipo de reuniões de condominio. Em gerla são desgastantes e inuteis. Na ultima vez que fiz a besteira de ir, apos um longo dia de trabalho, A reunião so começou em segunda chamada as 9 horas, em vez das 8 horas prevista, pois metade dos convocados não apareceram. A ideia era discutir a mudança ou não da administradora predial. Começaram as acusações de favorecimento, de desvio de verbas, de incompetencia administrativa e etc. e tal com pessoas aos berros se acusando mutuamente. Depois de mais de uma hora de bate boca inutil bati palmas com foirça pra chamar a atrenção da turba e propus de se fizesse a leitura das propostas das administradoras candidatas. Sem esse conhecimento qualquer discussão era inutil afinal de contas. esfriado os anoms e feita a leitura em 10 minutos foi feita a votação e a nova adminstradora foi eleita.
    Pergunto:
    Não seria mais logico e mais adulto fazer isso logo de saida?
    Porque as pessoas são tão mesquinhas umas com as outras?
    Inferioridade espiritual? Ignorancia dos mais basicos principios de civilidade? Arrogancia?
    É tudo isso e um pouco mais.
    Ja disse Voltaire: (se não me engano): "Quanto mais conheço os homens, mais gosto do meu cachorro" -
    Falou e disse.

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  6. Uma crônica deliciosa do Pedro Luso. Reunião de condomínio vista com muito bom humor. Abraços,
    Élys.

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  7. Olá,Boa noite
    Taís e Pedro
    gostei do tom bem humorado para lidar com essa "coisa" chata...sim, confesso que é chata. Mas é necessária. Muitos dos orçamentos são aprovados, sem que e às vezes nem ficamos sabendo da existência de reuniões do condomínio...mas, enfim, fica a dica, temos que nos envolver nos problemas do condomínio, sim... e ficar mais conformado quando chegar aquela taxa extra... ah, sim! Que marquem pelo menos em um horário adequado, longe das telenovelas ( ou do futebol,meu caso) ...muito bom!
    Obrigado pelo carinho, bela semana, beijos e abraços!

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  8. Olá Tais, eu já havia lido esta crônica, no blog do Pedro Luso, achei brilhante. Gostei de reler aqui, pois é uma leitura que sempre nos dá novas ideias. Pelo que ouço falar reuniões de condomínio são horas de tortura, porém às vezes, muito necessárias para o bom andamento. O humor da crônica a deixou com uma leveza gostosa. Grande abraço!

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  9. Sensacional!! O horário de reuniões de condomínio nem sempre estimula os condôminos. Sei que é indispensável delas participar, eis que de nada adianta reclamar quando já houve aprovação de certas providências (nem todas necessárias). Mas não costumo ir (rss). Não suporto as discussões intermináveis, sem apresentação de proposta concorrente. Há dois anos está havendo obras no meu condomínio. Já me irritei muito com elas. Agora, nos finalmente, vejo que os resultados estéticos estão muito bons. Mas haja dinheiro para taxas extras. Bjs.

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  10. rsrsrs...
    Não gosto de reuniões de condomínio, pois elas acabam se estendendo em virtude de bate papos paralelos ou que não levam a lugar algum. Sempre há os contestadores, que não apresentam soluções que entendem apropriadas, e aqueles que já começam dizendo que estão apertados financeiramente, esquecendo-se de que o prédio é patrimônio de todos e precisa de manutenção constante. Quando sou síndica já vou logo avisando, por escrito, que a ausência implicará em concordância com as decisões proferidas na reunião. Claro que é apenas uma medida intimidativa, pois há decisões que não podem ser aprovadas sem quórum específico. Agora, cá pra nós, marcar uma reunião para dia e horário de um último capítulo de novela é muita falta de bom senso do síndico-rsrs.

    Adorei a espirituosa crônica do maridão, que retrata bem a realidade das reuniões de condomínio.

    Beijo.

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  11. Nunca morei em condomínio, mas também nunca ouvi uma experiência positiva alheia sobre reuniões com os condôminos! É muita ideia e pouca ideia ao mesmo tempo, é muito assunto, muita limitação que vem de um lado. Não se agrada todo mundo e a colaboração deve ser unânime. Fica muito difícil!
    Muito boa e divertida sua crônica, Pedro.
    Abraço!

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  12. Enfrento o condomínio na questão dos pagamentos a serviços prestados.
    A porta de um prédio com quatro moradores, está encostada ao lado só por causa de 60 euros, alguém diz que paga mas até agora nada. Só farei o serviço se me pagarem adiantado.
    Considero que as reuniões são importantes sobre algo justificável.
    Abraço

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  13. Olá Taís! Tenho certeza absoluta que o Pedro não escreveu esta bela crônica no horário da novela, pois, caso contrário, não teria conseguido escrevê-la com tamanha perfeição.

    Abraços e muita paz para ti e para os teus.

    Furtado.

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    1. Olá, Furtado, na verdade ele se inspirou nessa novela porque todos falavam muito nela, mas ele nunca viu nenhum capítulo. rs Escreveu (no blog dele), em 9 de fevereiro de 2014. A Odete já tá morta há horas... Coitada.

      Abraços nossos pra você!

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  14. kkkkkkkkk eu sou dessas que nunca participei de reuniões de condomínio (quando morava em apartamento. Confesso que não tenho paciência...Ainda bem que meu marido ia no meu lugar...
    Mas até o síndico preocupado com novela?!!!!!! kkkkkk

    Bjussssssss

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  15. É muita falta de consciência, essas coisas eu levo a sério.. Não assisto novelas, futebol, telejornais... E pra não dizer que eu sou antissocial, adoro o Face e Coca-cola.

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  16. Oi Taís, nunca morei em condomínio, mas já ouvi muitas pessoas falarem mão da reunião. Este texto ficou bárbaro kkk.

    Abraços

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  17. Caros amigos da Taís (e meus amigos. também), venho a este espaço para agradecer os comentários, que foram feitos à minha crônica "Reunião de Condomínio"; obrigado e um forte abraço a todos:

    TAISINHA
    CHICA
    ANDRADE
    CÉLIA RANGEL
    SIG SOUZA
    ÉLYS
    FELISBERTO JUNIOR
    MARLI TEREZINHA
    MARILENE
    VERA LÚCIA
    LUÍS FELLIPE
    MANOEL LUIS
    FURTADO
    MARINEIDE
    FÁBIO MURILO
    CARLOS HAMILTON

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  18. Crônica real, excelente. Os condôminos nunca se unem para nada, apenas se reunem (alguns).
    E ainda há gente que quer ser síndico. Por quê? Ganham o quê? Há condõminos e condôminas que o taxam de ladrão. Hum, hum! Coisa difícil, não é?
    Francisco Miguel de Moura (franciscomigueldemoura@gmail.com)

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