6 de setembro de 2006

CREMAÇÃO OU SEPULTAMENTO?


obra de Salvador Dali 1904 / 1989
- por taís luso de carvalho

Sei que este não é um assunto muito agradável, porém várias pessoas me perguntam sobre cremação devido ao recente falecimento de minha mãe.

Ela não tinha dúvidas quanto a ser cremada; estava convicta e nenhuma dúvida ou medo lhe passava pela mente: meu pai tinha a mesma convicção, mas quanto ao sepultamento tradicional. E estava feito o impasse: Meu irmão e eu tivemos de interferir, pois minha mãe não satisfeita, queria fazer a cabeça de meu pai.

Lembro-me do dia em que meu pai chamou o ‘Agente Funerário’, a domicílio, para deixar tudo arrumado, já que era uma pessoa organizada e prática.

Ao passar pela sala, onde estava tratando dos pormenores, chamou-me num tom de gozação perguntando-me se eu não queria aproveitar e fazer minha comprinha... Lembro-me que quando vi do que se tratava, da compra da sepultura, passei pelo agente como veterana de uma formula 1... Que coisa horrível; me fui, voei pra minha casa.

Interessante... têm pessoas que tratam dessas coisas numa boa. E meus pais faziam parte deste time. Eu não quero nem pensar, mas por força das circunstâncias e, pela cremação ser algo novo entre nós, vou relatar o que vi e o que senti. Vou fazer uma forcinha. Até aqui consegui narrar com certa leveza...

O SEPULTAMENTO 


É aquilo que se sabe: o falecido no caixão, guirlandas de flores roxas com frases saudosas, velas gigantescas, um crucifixo atrás, deixando a coisa mais pesada, as pessoas levando suas condolências aos que ficam e, em seguida, saindo um pouco pra fora da capela, pra aliviar o quadro de dor. A paisagem é catacumba em cima de catacumba. Benção do padre e a cerimônia do sepultamento na catacumba de número tal, horrorosa. Entre muita dor vê-se o caixão sendo empurrado e o coveiro lacrando com cimento. Depois o acabamento de mármore, decoração. Coisa tétrica. E, à noite, uma lembrança que dói demais; o corpo de meu pai lá, entre centenas de catacumbas. E depois, ano após ano, as visitas no Dia dos Finados, trazendo à nossa mente, aquele triste dia do sepultamento. Isso jamais se esquece uma vez que, todo ano a coisa se repete.

CREMAÇÃO

A cremação é algo muito diferenciado: pessoal treinado para lidar com a dor alheia, com emoções. Desde a escolha do caixão segue-se uma rotina de conforto emocional. Tudo muito organizado; somos procurados para todos os detalhes. O próprio Crematório, o qual minha mãe foi cremada, é de arquitetura leve, nada lá dentro causa opressão; é arejado, limpo, moderno e com um astral de muita paz; sim, sente-se paz.


O Columbário (palavra que vem do latim e que significa casa das pombas), é um recinto fechado por vidros, com nichos o qual ficam as caixas com as cinzas, com o retrato da pessoa ou com algo pessoal como terço etc., até quando os familiares decidirem o que farão com as cinzas. Pode ficar no Columbário para sempre, se assim a família desejar.
A cerimônia em si é que dói demais, é algo mais forte, é emoção pura: não se compara ao sepultamento tradicional.

A capela já é diferente; é um tipo de anfiteatro, acarpetado, com cadeiras forradas, tudo em tom de azul. No centro é colocado o caixão aberto. Antes, porém, os filhos, no caso, meu irmão e eu, fomos chamados para escolhermos as músicas que queríamos para a despedida de nossa mãe. O Frei falou um pouco da vida dela, mas foi breve.

Eu escolhi Feelings, para a entrada, e Ave Maria para minha despedida, poucas palavras eu consegui dizer; meu irmão se juntou a mim e, para acompanhar suas palavras ouvia-se Ghost. Após, o caixão foi fechado e suavemente foi descendo enquanto um painel dourado ia subindo... Meu irmão e eu ficamos abraçados em frente ao painel. Não preciso contar das lágrimas que se juntaram às nossas...

A cremação do corpo acontece  24 horas depois.
Todos os funcionários vieram se despedir. Após 2 dias fomos avisados que nossa mãe já estava no Columbário, à nossa disposição. Antes de levar suas cinzas para soltar num canteiro de flores - onde ela pediu - podemos visitá-la a qualquer hora, sentados e num ambiente de paz.
A missa é avisada pelos jornais.

A perda é algo tão dilacerante que tentar suavizá-la é uma obrigação que temos para conosco.
Contudo, conseguimos uma despedida de amor, não ignorando que nossa recuperação será lenta.

Acho, amigos, que consegui contar o que me propus.
A cremação, para os que ficam é difícil de aguentar, segura coração! Mas como contraponto a lembrança é sublime. E é ali que tudo acaba. Mas é neste momento que se acredita na eternidade do  espírito.





3 comentários:

  1. Anônimo21:04

    Amiga Thaís,

    Hoje é um dia que estou muito saudosa.Há dois anos que o meu pai faleceu.E em novembro próximo fará um ano que a minha mãe também faleceu.E foram cremados.
    Hoje li seu depoimento sobro cremação e fiquei um pouco aliviada pois estou muito confusa em relação a tudo isso.Principalmente pelo destino dado as cinzas deles.Como eles não haviam escolhido o destino delas,nós que somos 7 filhos apos ter deixado um tempo no columbario,decidimos coloca-las num parque florestal,pois eles gostavam muito de plantas.Mas sinto falta de um lugar como referencia de onde estão os restos mortais deles,apesar de ser espirita.

    Um abraço,
    Patricia

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  2. Oi, Patricia, este teu comentário vale uma crônica. Há muito o que se falar sobre este assunto. Me aguarde. Pena não teres deixado teu e-mail. Espero ter a sorte de, quando postá-lo, contar com tua leitura.

    Um abraço, amiga.
    Taís

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  3. para alguns a morte pode ser o fim da linha .. mas para mim e o começo de uma nova vida que renaçe do aprendizado da vida terrena que fomos aqui colocados por isto quando morremos estamos em contato com o autor eprofessor do renacimento da vida e morte.. (viva para depois morrer)....... e renaçer em cristo.........

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