12 de julho de 2009

UM CARA BOM DE CUCA


Van Gogh / Comedores de batatas
 - Tais Luso de Carvalho

Assisti um programa na televisão, no dia 4 de julho, e que me emocionou bastante. Mas nada de montagem ou ensaio para nos levar às lágrimas; aquelas coisas abomináveis. Deu pra notar que foi acontecendo, na base do inesperado. Não me emociono (com certas exceções)  com a vida de ricos ou famosos e muito menos com seu adeus. E, muito menos, ainda, se partirem desta pra outra com 100 anos de idade. Já atravessaram o século e já estão no lucro, algo difícil de acontecer com os menos afortunados.

 Lembro da  Rainha Mãe, da Inglaterra, que partiu dormindo aos 104 anos, coisa de dar inveja, é tudo o que eu gostaria. Viveu bem, usufruiu do bom e do melhor, não passou trabalho, enfim, fez aqui o seu paraíso. Nós, pobres mortais, os súditos do esquema ‘verde-amarelo’, de uma hora pra outra podemos passar por maus lençóis.

Vi um pai de família, vendedor de frutas, que tinha como instrumento de trabalho nada mais do que uma Kombi demolida, na carcaça, e com quatro pneus arriados, só no ferro. Sua família pareceu-me bem estruturada para o padrão em que viviam, parece mentira...

Quando a gente vê um pai, que só consegue chorar por uma oportunidade de trabalho mais digna; quando a gente não vê mágoas contidas; quando a gente não vê um pingo de avidez; quando a gente vê esforço e alegria, apesar da quase miséria, emociona. Deu pra sentir que o homem tinha uma cabeça trabalhada por Deus. Era bom de cuca.

Quando não se consegue narrar o que se viu; quando não se consegue narrar a dimensão do agradecimento de um homem, dá pra pensar que nem tudo está perdido. Eu não consigo descrever.

Sim, porque o mais fácil seria reclamar da sua condição de pobreza e sacrifício. E não seria injusta essa reclamação, uma vez que constatamos, diariamente, e como cidadãos, atos que poderíamos classificar de ‘deboches’.

Emocionei-me porque vejo que nosso país não dá nada para os que realmente necessitam. E dá ‘montanhas’ para os que nada fazem. Privilegia quem não precisa; fecha os olhos para os desventurados, para os desgraçados.

Certas atitudes emocionam, mas até explodir o coração de alegria e agradecimento, até entrarmos num estado de euforia agradável, muita água rolou, muitas renúncias se fizeram necessárias, muitas lágrimas desperdiçadas.

Aí dá pra ver um pouco da grandeza do espírito humano quando ele consegue ter, mesmo na miséria, gratidão e sinceridade pelo mínimo que recebe.
Coisa difícil de se ver.

13 comentários:

  1. Rosane Dias22:07

    Amiga, fecho com você quando fala dos privilégios aos abastados e nada aos desventurados, aos desgraçados.
    Gostei muito (e também de seus outros textos que li; você sempre diz as coisas sem rodeios).

    Beijocas,
    Rosane

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  2. O seu texto me fez lembrar quatro meses que passei no ano passado em S. Salvador da Baía. A casa onde fiquei, à beira da praia, tinha um caseiro. Conversava muito com ele. Um dia disse-me. "Eu sou um homem muito feliz. À noite saio descalço correndo pela praia deserta, sozinho com o Tobias (cão de guarda). O mar, o céu e todo o Universo são meus. Não tenho medo.
    Ninguém me vai assaltar. O que tenho levo dentro de mim. Não se vê para roubar". Também me vieram as lágrimas aos olhos com a afirmação do Zé.
    Este homem não tem salário, toma conta da casa e recebe o "cabaz social" que não dá para viver nem para uma semana. Mas ele vive e é feliz.
    Um abraço,
    Maria Emília

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  3. Sem dúvida difícil de se ver. Por cá julgo que seria mesmo impossível. Todo mundo se queixa de tudo e de nada e vivem sem nada fazer à custa de subsídios por tudo e por mais qualquer coisa, enquanto os que vão fazendo pela vida, todos os dias, pagam os impostos para benefício dos outros.

    Cheguei ao cúmulo de ter mães e pais de meninos perfeitamente normais a pedirem-me certificados ou atestados de deficiência para, assim, poderem ter um subsídio acrescido e continuarem a não fazer nada...

    Gosto deste visual!

    beijos.

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  4. Essa gratidão e sinceridade pelo mínimo que recebe é quando ele acerta no alvo das provas pelas quais o espírito humano tem que passar.

    É quando ele faz diamantes de pedaços de vidro e encontra satisfação nisso.

    É quando ele não deixa a matéria dominar e subjugar as leis espirituais.

    É quando ele se lembra da parábola da viúva.

    É quando ele aceita o desafio e não se intimida em vencer a porta estreita.

    É quando ele se lembra que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico ganhar o reino dos céus.

    Estive por aqui.

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  5. Amiga Taís

    Sabia que os desventurados servem apenas para dar votos a quem irá
    depois espoliá-lo e sugar-lhe o
    suor do trabalho?
    Sabia que aqueles que nada têm, de nada necessitam para dar i voto a quem depois irá roubá-los?
    Eu não tenho dúvidas que a minha amiga sabe tudo isso, porque sei
    que é inteligente!
    Mas sempre os mesmos continuam
    a aplaudir esses priveligiados
    parasitas!

    Desculpe. Não me alongo mais

    Um beijo

    Alvaro

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  6. Quando a luz se apaga
    e os cobertores descansam sobre mim
    um frio extremo me abraça
    e acordo, antes de dormir...

    Não há o calor de seu corpo
    não há a esperança de sua voz
    nem o vapor de seu hálito...

    Quando levanto cançado
    sem dormir um só minuto
    sinto ter alcançado
    a solidão do calabouço
    e no desdém fico acorrentado!

    Minha vida se esvai sem ti,
    escorre entre os dedos,
    e depois que me despedi
    tu levastes minha alma,

    e deixastes apenas seus segredos!

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  7. Taís, viu o que Rosane Dias lhe disse? Pois, como sou comodista,
    faço minhas as palavras dela.
    Um ótimo "bigu"! Obrigado Rosane,
    parabéns Taís!

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  8. Amiga Taís

    Passe em meu blog e receba meu
    Sêlo de 2000 Visitas de meu blog.
    Será para mim uma honra.

    Um beijo

    Alvaro

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  9. Difícil de se ver mesmo, Taís. Não é à toa que se diz que "quem é fiel no pouco o será no muito tbm!"
    Grande abraço!

    LU MARIA

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  10. Maria Lúcia Meireles14:50

    Realmente, minha amiga Taís, esse cara é bom de cuca mesmo! No mundo atual, onde todos têm problemas psicológicos causados pelos tempos de crise econômica, é de admirar uma pessoa na condição desse senhor ainda ter sanidade para lidar com a falta e agradecer o pouco.

    Pra mim ficou uma lição e fiquei até envergonhada quando reclamo da vida.

    Muito obrigada, Taís, por teres a mente pura para conseguir escrever para a gente entender que nem tudo está perdido e ainda tem gente que agradece o pouco.
    Deveríamos ser assim. Agradecer o muito e o pouco também!

    Um abraço,
    Lúcia.

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  11. Se não tivesse um medo mortal da escuridão o homem não teria descoberto como fazer fogo. É a necessidade que move a espécie humana. Quando se dá tudo a tendência natural da espécie é se tornar parasita. Hoje vivemos num mundo de cabeça para baixo onde as crianças não precisão estudar para serem promovidas, as famílias não precisão trabalhar para receber o bolsa família.

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  12. Taí, este universo paralelo que a internet, às vezes apresenta gratas surpresas, este blog é uma delas, parabéns. Você flui os pensamentos com uma leveza e facilidade invejáveis. Abraços, JAIR.

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  13. Bem, o pior que sempre elegemos um dia para fazer algo que negligenciamos durante o ano...

    Nota que já está na época das campanhas de ajuda os necessitados, mas será que dá certo fazer isto?

    Pois não estamos atacando o motivo da probreza (como tendo uma melhor educação, ou incentivo a novos focos de emprego e etc), apenas tratando os sintomas dela...

    Fique com Deus, menina Tais.
    Um abraço.

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