24 de novembro de 2013

LIDAR COM A FAMA



- Tais Luso de Carvalho


Ontem, eu e Pedro precisávamos fazer umas compras e entramos no Shopping Moinhos de Vento. Em seguida fomos tomar um cafezinho e comer algo. Já era fim de tarde, mas o sol estava a mil, dia lindo depois do dilúvio que tivemos.

Sentamos na cafeteria e Pedro me pergunta:

– Viu quem está na tua frente?
– Sim, um cabeludo de franja.
– Não; é o Carpinejar...
– Carpinejar? Não, o Carpinejar  não usa franja...
– Olha pra tua esquerda!!
– Ahhh, à esquerda…  Calma, deixa eu ser discreta…
– Viu?
– Sim,  é ele, igualzinho... Camisa preta, sem cabelo e sem franja.

Interessante e cômica é a visão dos homens: eles não tem uma visão periférica, tudo está na frente!  Não existem detalhes, nuances de cores, pormenores... E nem cantos de cafeteria.

O bairro em que moramos é um bairro cultural de Porto Alegre. Encontramos muita gente conhecida. Carpinejar é um dos que anda por aqui, com seu famoso óculos  estilo moscão. Mas eu o reconheceria até de burka – só pela sua risada. Alguns devem lembrar de tê-lo visto em alguns programas do Jô - muita simpatia atrás de uma risada marcante, muito engraçada.

Excelente cronista e sensível poeta. É filho do poeta Carlos Nejar - um dos imortais da Academia Brasileira de Letras. Sua mãe, Maria Carpi, também é poeta. Herança genética é isso.

Bem, retomando o fio, quem lê muitos  escritores locais, nesse caso falo nos gaúchos, naturalmente sente-se mais próximo. Quando encontramos com um deles por aqui, parece que o conhecemos desde a infância. É aí que mora o perigo: não dá para ir chegando, constrange a pessoa. Então você não sabe se enxerga a criatura ou faz que não enxerga, deixando a coisa mais normal. Fluir.

Explico: no caso Carpinejar, eu olhei e logo desolhei por não querer invadir sua privacidade. Deixar o escritor ou artista como anônimo, tomando um cafezinho com seus amigos, deve ser bom demais. 

Mas também é desagradável você bater olho no olho e fazer que nunca viu alguém superconhecido. É terrível, dá uma ideia de retardada. Então você abre um sorriso tímido, com um neon na testa dizendo que o conhece mas não vai invadir sua privacidade, que fique descansado. E o tal do Olá sai discreto, raquítico - mal se ouvindo.

Com isso tudo, meus olhos pareciam olhar de águia  sobrevoando aquela cafeteria, e paravam  justamente  naquele canto: colavam lá como um ímã de geladeira. Curiosidade é coisa triste. Tenho vontade de falar e ao mesmo tempo receio de invadir sua privacidade. Não é lá muito fácil.

Contudo, vejo que deve ser difícil ser conhecido e enfrentar certas situações. 
Se eu sair de pijama, ninguém notará. Será, apenas, mais uma louca de pijama pelas ruas da cidade.  

Mas o bom mesmo é quando não precisamos disfarçar quando podemos derramar pelos nossos caminhos uns alegres Oi, tudo bom? Sem o perigo da invasão.
É a sensação de que o mundo está em festa: pelo menos o meu mundo – por menor que seja a minha Aldeia.

Não tenho dúvidas que deve ser difícil lidar com a fama. 






29 comentários:

  1. Limerique

    "Todo mundo" adora e quer ter fama
    Mente quem diz que ser visto não ama
    Mas depois que chega lá
    Com invasão que advirá
    Do reconhecimento público reclama.

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  2. a Águia, símbolo do meu time (Benfica)

    Abraços!

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  3. Seu texto é muito interessante. Gravitarmos em torno da "fama" chega a ser saudável, caso não nos incomode... pois títulos, nobreza, poder são tão voláteis que de certa forma, para quem não tem bom senso e equilíbrio, em suas ações de relacionamento social, deve ser até muito desagradável... Olhar e fingir que não viu; por outro lado ver e sentir-se "comum"... é questão de maturidade e domínio de personalidade.
    Abraço.

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  4. Como diz o anedotário urbano: "Celebridade é alguém famoso por ser conhecido".

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  5. Realmente, lidar com a fama não é fácil. Também gosto do Carpinejar, um cara arguto, irônico, inteligente...
    Taís, já que o tema é gente importante, quero falar sobre teu post de maio de 2010 "O meu poeta Mario Quintana". Quintana é meu grande ídolo, aliás, amo em primeiro lugar três poetas: Mario Quintana, Fernando Pessoa e Jorge Luis Borges. Mário não é o maior deles, mas está em primeiro lugar na minha idolatria, acho que por tudo o falaste no post. Disseste que nunca viste o Mario frente a frente e se o visse talvez ficasse muda, pois eu vi o Mario muitas vezes, em diversos lugares - eu morava no centro na minha juventude -, mas nunca o abordei, não conseguia dizer nada ao vê-lo. Apesar de toda a simplicidade do poeta, a figura dele passava-me a ideia de algo sagrado. de alguém para ser venerado, alguém para a gente aplaudir em silêncio...
    Um abraço. Tenhas uma linda semana.

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    1. Olá, Dilmar, pois é, além de ter uma ironia refinada, Carpinejar surpreende pelo que diz, tem uma psicologia nata. Vai na mosca, aborda coisas sérias com leveza e poesia.
      Quanto ao Quintana, ele encanta é pela maneira simples de mandar seus recados, de falar sobre a vida em forma de poema. É cativante. Falo ainda dele como se estivesse vivo...

      Obrigada, Dilmar, um abraço!

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  6. Comentava com uma poetamiga carioca, sobre isso Tais. Se ganha muito dinheiro, notoriedade, visibilidade, mas pagasse um preço por isso: essa aura de deus, e conseqüentemente a idolatria e o tratamento dispensado aos santos, aos inalcançáveis, aos padrões desejáveis. As infindáveis viagens nas intermináveis turnês, a possibilidade perdida do contato publico: ir ao campo de futebol, ao supermercado como qualquer mortal... Seres humanos que são por trás da armadura reluzente de artistas. Condenados ao destino dos santos aprisionado nos altares.

    http://apoesiaestamorrendo.blogspot.com.br/

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  7. Taís,
    vc relatou com precisão os nossos escrúpulos ( ao menos de quem respeita a privacidade alheia) ante um famoso reconhecido.Me vi em cada linha tua.Já cruzei por aqui com uns poucos e fiz exatamente como vc: deixei um sorrisinho tímido fazer as honras do reconhecimento,rsrsrs
    Uma ótima semana aí.
    Bjos,
    Calu

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  8. Taís, com certeza deve ser difícil. Estamos falando, querendo ou não, de dois patamares diferentes. Pessoas famosas chamam atenção, mas muitas também querem viver normalmente, sem aquele sufoco do reconhecimento por onde passam. Alguns até saem do círculo de olhos, deixam a fama, preparam uma reclusão. E reclusão hoje em dia tem que ser em área rural, né. O mundo é superpovoado, difícil fugir. O importante é que nós tenhamos consciência, ou então aquele desconfiômetro que todo mundo comenta rsrs. Desde que saibamos respeitar, uma pequena saudação não faz mal.

    Muito bom teu texto!
    Beijo

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  9. Mais um belo texto....Acontece assim mesmo....mas por vezes, estamos nos classificando....Será que o ser humano é assim tão diferente...?? Ou é uma questão de educação????O seu a seu dono....mas menos timidez......
    Boa semana
    Beijo

    Gostei de ler..."Celebridade...é algo famoso, por ser conhecido...."

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  10. Olá querida amiga Tais, obrigado por palavras tão carinhosas lá no meu bloguinho, muito obrigado...quando o post chegou no teu olhar de águia não contive o riso, muito bom...
    Tou com um problema no meu blog, e isso é terrível,porque não sei lidar com este lado prático na net.
    Faz algum tempo que não caminho pelas ruas de Porto Alegre, que eu tanto amo, então foi delicioso acompanhar este passeio, que nos conta dessa maneira que tão tua de colocar as palavras e formar as frases e criar todo um mundo, que poderia passar despercebido, como não refletir, tuas crônicas são um convite a leitura. Mais um belo texto para apreciar, como um presente. Obrigado.
    ps. Meu carinho meu respeito e meu abraço.

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  11. Oi Tais,

    A fama, como tudo na vida, também deve ter o lado B.
    O anonimato tem gosto de liberdade.

    Sempre bom passar por aqui. Obrigada pelo carinho no Palavras.
    Abs

    Leila Rodrigues

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  12. Bom dia, querida amiga Tais.

    Em se tratando do CARPINEJAR, eu não conseguiria ser tão diplomática quanto você. Eu me aproximaria bem devagar para sentir o clima, e diria parabéns, por ele ser quem ele é.

    Feliz semana.

    Beijos.

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    1. Oi, querida Amapola! Pois é... vi que você seria mais diplomática do que eu fui!
      Até vou lembrar dessa sua atitude de outra vez. Entre o 8 e o 80... Mas o meu cuidado foi de não incomodar, não invadir. Não ser chata.
      Beijos, amiga!

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  13. Essa coisa de fama é curiosa. Conheço um autor relativamente famoso na cidade onde moro. Um cara bem gente como a gente, sabe? Mas, eu entendo que se chegasse qualquer pessoa com ele, querendo tirar foto e etc, estaria incomodando. Eu me coloco no lugar de uma pessoa "famosa" também :'). Gosto de ter minha privacidade e vida mantidas longe dos holofotes.

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    1. Oi, Suzi, pois é, não dá para aplicar a mesma regra a todos. Até pensei no caso da Amapola, (acima). Ontem casualmente 'bati' com outro e vi que o camarada estava na dele, completamente avesso a qualquer aproximação. Então continuei no meu esquema... Assim não dou chance ao erro. Nada melhor do que o anonimato. É muito difícil esse tipo de coisa.

      Um abraço!

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  14. Tais, eu sou um ser que precisa (necessita) de privacidade... Não suportaria ter que lidar com a fama! É muita invasão! Tem pessoas que gostam, eu não! Eu gosto de silêncios e de ficar comigo mesma, na maioria das vezes...
    Gosto muito de Carpinejar...Ele é muito simpático e, sobretudo, tem a alma muito feminina...Adoooro!!!!

    Beijão

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    1. Marcia, você falou tudo que penso; também preciso de silêncio, me faz bem. E privacidade, toda! Quanto ao Carpinejar, você acertou, é um lado que se identifica com o nosso. Quem não gosta dessa sensibilidade?
      Beijos, querida.

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  15. Tais, creio que a fama só agrada aos que ainda não se firmaram, realmente, e sentem necessidade de exposição. Pessoas notáveis e conhecidas por seus méritos gostam de estar em lugares comuns e terem privacidade. Assim vejo e prefiro olhar de soslaio (rss). Confesso que, pela admiração que ele desperta, talvez não conseguisse deixar de dizê-lo, apesar da timidez. Bjs.

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  16. Como na vida tudo tem um preço, a "fama" também tem o seu. Mas acredito que o artista goste de ser tietado, afinal o sucesso depende muito dos espectadores ou no caso ,dos leitores. Acho que ele ficaria feliz com sua aproximação que com certeza seria discreta. No fundo todos precisamos de carinho e atenção. Muitas vezes o bom senso nos priva de belos momentos.
    Apesar de tudo é mesmo difícil a decisão, de se sentir invasora ou ficar no anonimato.
    bjs. Taís.
    Gostei muito.

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  17. Carpinejar tem um programa na TV Gazeta de SP de nome A Máquina onde ele entrevista . Pena que é muito tarde.

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  18. Lidar com a fama... Chato, mas inevitável. Atores, escritores, atletas famosos, entre outros estão sujeitos a isso. Mas não vejo nenhum mal nós cumprimentarmos os famosos. É uma maneira de prestar homenagem, creio.
    Abraço.

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    1. Oi, Jorge, o meu problema mais específico é aqui, quando sentimos uma familiaridade com os nossos escritores, achamos que é 'coisa nossa'. Então bate aquela coisa de querer ir, como se fossem nossos parentes. Achei que a aproximação naquela cafeteria seria invadir completamente a sua privacidade.

      Abraços!!

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  19. Tais, os famosos pelo menos quando sós gostam de ser reconhecidos, Normalmente são pessoas simples, nós é que perante eles nos sentimos pequenos. Não há muito encontrei o maior, a meu ver o maio ator de Portugal (por acaso meu vizinho em Lisboa), mas estive com ele a cerca de trezentos quilómetros. Pedi para lhe tirar uma foto, ao que respondeu: o amigo vai ficar na foto comigo. Aconteu assim ilustrado com essa lhe dediquei um poema.
    Ele tinha família por companhia.
    Beijos

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  20. Vc me fez rir gostoso, Tais... que bom que é!!

    Eu acho que alguns famosos sinalizam a "permissão" até pra que não se sintam invadidos, mas já cruzei com tanto estrelismo e atitude pedante que, a partir de então nem tieto mais pq perco o T... rsrs
    Mas a familiaridade que sentimos com famosos em geral é inegável, talvez pelas afinidades que vemos, pela admiração pura e simples e merecimento... enfim, tuas considerações são tb as minhas, e acabo optando pelo "respeito" ao momento de pobre mortal que esteja presenciando de alguém que admiro.

    Saudade daqui, de ti... bjos, bom fds!

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    1. rsss, é isso mesmo...cada caso é um caso. As opiniões aqui estão muito interessantes!
      Beijos, meu carinho!

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  21. Olá Tais! Também acho que deve ser meio complicado para alguns. As pessoas precisam saber manter as devidas distâncias... penso eu. Outros fazem tudo para conseguirem dar nas vistas e fazerem "sucesso" de forma disparatada.
    Bom fim de semana.
    M. Emília

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  22. Ser deve ser bom até o momento, que se sente sem a liberdade de estar.
    Há uma invasão desmedida bem comum de pessoas que não tem desconfiômetro de que muitas vezes o famoso quer ser invisível, ou seja tem hora para tudo mesmo Taís.
    Uma bela observação para uma reflexão do que vale e quanto vale em nossas vidas.
    Um abração amiga.

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  23. Tais, lidar com a fama deve ser difícil,mas penso que nem todos os famosos pensam igual, há os que querem ser notados, aplaudidos, fotografados,mas há aqueles que repelem seus admiradores.Penso que é o preço que cada um deva pagar,. Só não aceito a prepotência e a agressividade que alguns revelam ao serem abordados pelos seus fãs. Achei muito interessante sua crônica. Beijos e um bom final de semana.

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