29 de janeiro de 2012

TRANSPLANTES DE ÓRGÃOS / DOADORES VIVOS



 O SENTIMENTO QUE PREVALECE

- Dr. José Camargo

Com a proliferação de transplantes com doadores vivos, emergiram as questões éticas. Depois de muitas discussões, se estabeleceu o consenso de que nenhuma pessoa normal deve se submeter a um procedimento de risco – não importa quão pequeno seja esse risco – para tentar salvar uma pessoa muito doente.

Como pacientes graves continuaram recebendo rim, parte do pulmão ou do fígado na tentativa desesperada de continuar a viver, fui convidado a participar de um desses debates com ilustres professores de Teologia, Filosofia e Direito.

Os argumentos me pareceram racionais e contundentes. Fui generosamente deixado para o final do debate, talvez para que tivesse tempo de produzir umazinha justificativa que fosse para contrariar preceitos tão sólidos, ainda que destituídos de qualquer resquício de afeto.

Aproveitei para contar-lhes a história da Sabrina, uma loirinha de cabelos cacheados e olhos muito azuis, internada em fase final de sua fibrose cística. Diante das dificuldades de se conseguir, com a urgência exigida, um doador cadavérico cujos pulmões fossem compatíveis com o tamanho de sua caixa torácica de menina, foi cogitada a possibilidade de transplante intervivos, no qual uma parte do pulmão do pai e uma da mãe substituiriam os pulmões destruídos da Sabrina.

Completados os exames uma surpresa: o pai era incompatível do ponto de vista da tipagem sanguínea.

Quando a mãe, no seu desespero, propôs que se usasse uma metade de cada um dos seus pulmões para substituir os pulmões da filha, expliquei-lhe que isso era impossível, porque o somatório das perdas implicaria numa redução da qualidade e provavelmente da extensão de sua vida.

Então a mãe, com a dor da perda antecipada no rosto, me perguntou:

"E se a minha filha morrer, o que farei com este excesso de pulmões que Deus me deu? Por favor, dê uma utilidade à minha vida!"

Quando terminei o relato, ninguém pareceu ter vontade de discutir. Aparentemente todos tinham entendido que o amor verdadeiro não suporta limites ao exercício de sua plenitude, e invariavelmente impõe suas próprias regras. Às vezes intangíveis, às vezes dolorosas, mas sempre comoventes.


(J.J. Camargo - Médico pioneiro de transplante de pulmão da América Latina).
ZH / 21.1.2012


9 comentários:

  1. Tais,
    Com certeza o amor quando é grande e verdadeiro suplanta todos obstáculos e argumentações racionais.
    Bela crônica que você postou.
    Beijokas doces e uma semana maravilhosa.

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  2. Excelente resposta a da mãe: eu diria a mesma coisa. Cabe a cada um decidir o que realmente é importante.
    Boa semana!

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  3. Tais,
    Questão altamente problemática para ser discutida. Envolve emoção e é perfeitamente entendível uma mãe sacrificar parte de seu corpo em benefício da filha, eu faria isso por um filho meu e explico. Meus filhos são mais novos e têm, teoricamente, muito mais vida e muita contribuição a dar, eu, nem tanto. Outra coisa a doação para um filho, por estranho que possa parecer, é um ato EGOÍSTA, estamos tentando nos perpetuar através dele. O "Gene egoísta" de Richard Dawkins põe o dedo na ferida nessa questão fascinante, mas aqui não dá para explicar. Abraços e parabéns pelo "upgrade" fotográfico, JAIR.

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  4. Lindo. O amor verdadeiro é esse. Me fez lembrar uma história, que não sei se é ou não verdadeira, mas que narra o seguinte:

    Diante do tribunal reunido e do juiz, após ter ouvido seu filho ter sido sentenciado à morte, a mãe se atira de joelhos e pede misericórdia aos prantos e berros. Diante disso, o juiz toma a palavra e diz "minha senhora, ele não merece a misericórdia, pois é réu confesso neste horrível crime". E a mãe teria respondido: "É justamente por isso que eu peço misericórdia, sr. juiz, pois Jesus ensinou que a misericórdia é justamente para quem não merece".

    Então, Tais, independentemente de qualquer lógica humana, o amor da mãe vai além de toda ela; é o único amor de verdadeira misericórdia e doação. Sorte de quem tem mãeviva!

    1 bjo
    Cesar

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  5. Tais,

    A mãe corajosa do relato do Dr. J. J. Camargo dá voz ao sentimento de praticamente todas as mães frente a situação semelhante: eu não poderia imaginar meus filhos correndo risco de morte sem que eu tivesse feito absolutamente TUDO para salvá-los. O amor verdadeiro de fato impõe sua regras.

    Excelente o artigo, obrigada por compartilhar conosco!

    Beijos.

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  6. Taís bom dia!
    Olha eu não exitaria a doar um órgão se fosse necessário para salvar a vida de uma pessoa sendo da parentela ou não - não sei quanto tempo viverei; penso que posso estar funcionando como um relógio mas derrepente a pilha acaba com a máquina impecável, enquanto outros podem restaurar toda a máquina já que a pilha que dá fôlego a vida tem uma vida mais longa.

    Apenas não fiz esta opção na Identidade porque temo pelo roubo e assassinato de pessoas para comércio de órgãos.

    Devolvir a vida a outro é um gesto de humanidade.

    Bjs, e boa semana amiga.

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  7. Com certeza é uma grande polêmica a questão do transplante intervivos. Se é compatível e não doa a pessoa morre fica o remorso de não ter feito, principalmente se é um filho ou parente próximo.

    Está aí mais um motivo de desespero para aqueles que precisa de um novo órgão, o drama de quem precisa é quase a eterna espera.

    Bj

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  8. Querida amiga, lindo teu post. O amor verdadeiro é incondicional, é doação, é plenitude.Atos heroicos nascem da necessidade,da emoção, do envolvimento.
    Complexo o assunto, mas não incompreensível.
    Parabéns pela abordagem postada.
    Tenhas dias suaves e felizes,Bjs Eloah

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  9. Por enquanto, sou dador de sangue duas vezes por ano. Uma forma de distribuir o meu amor, a minha vida pelo próximo.
    Beijos

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