10 de outubro de 2014

FERNANDO PESSOA / POEMA EM LINHA RETA


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu, tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às crianças de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda gente que conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o ideal, se os oiço e me falam.
Quem há nesse largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sidos traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


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Fernando Pessoa 1888/1935 Lisboa - Biografia de F.Pessoa
          Fonte: Coleção Pocket L&PM - pg 83,  Porto Alegre 1996.






21 comentários:

  1. Tais, lendo essa confissão poética encantadora , a primeira coisa que me ocorreu foi a exposição nas redes sociais. A perfeição, a beleza, os passeios, a bondade... onde a maioria dos mortais não se enquadra, e sequer os que postam, mas que o afirmam de modo enganoso e sem serem sutis. Como é gostoso e nos faz bem perceber que não somos os únicos que nos equivocamos, que falseamos, que mentimos... que vivemos tentando acertar e não o conseguimos, sempre. É como se estivéssemos frente a outro ser humano, e especial, a nos demostrar, com autenticidade, que não estamos sós na imperfeição e que muitas vezes os demais também escorregam .Nossas vidas são permeadas de altos e baixos e sentimos raiva, mágoa, sem seguir os belos preceitos divinos. Aliás, aqui estamos para aprender e creio que todos, em algum momento, praticam atos dos quais nem se querem lembrar ou confessar. Nem por isso, no entanto, precisam usar a máscara da virtude. Você foi iluminada ao escolher essa postagem. Grande beijo!

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  2. ..."Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo..."
    Taís! Excelente escolha a sua! Mais do que nunca vivemos dias assim, como o Pessoa... diante de tantas pessoas sem ética alguma! Sentimo-nos, realmente, fora desse mundo!
    Abraço.

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  3. Desconhecia totalmente....mas gostei de
    ter lido....,apreciei.
    Bfs
    Beijo

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  4. Gostei e também não conhecia esse! Gostei do teu comentário divertido lá,rs bjs, lindo domingo,chica

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  5. É isso Taís! Todo mundo é perfeito. Todo mundo é santinho. Só eu que não presto, o pior do mundo. Grande Fernando Pessoa! Belíssima escolha amiga.

    Abraços e um ótimo final de semana para ti e para os teus.

    Furtado.

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  6. O autor do poema, arrancou a máscara, desnudou a alma, sem medo disse verdades para esses semideuses, que se escondem atrás dos véus da mediocridade.
    Bela escolha, Taís!
    Grande beijo!!!

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  7. Ótimo esse poema de Fernando Pessoa, dos meus preferidos. Beijos.

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  8. Que bom reler o "Mestre"!
    Como me identifico na mensagem :"[...] Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
    Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."


    Beijos


    SOL

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  9. Olá Tais,

    Fantástico esse poema de Fernando Pessoa. Pura ironia.
    Quem dera caísse o véu da hipocrisia reinante entre grande parte dos seres humanos. Parece que assumir as fraquezas é vergonhoso, valendo mais a valorização das falsas aparências. Pela época da criação do poema constata-se que há muito tal artifício é utilizado. Falta humildade e autenticidade para que estejamos libertos da necessidade da utilização de máscaras.

    Beijo.

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  10. Oi Taisinha, amo o Fernando Pessoa. Escolheu muito bem. "Quem há nesse largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?" Essa pergunta até me lembrou o Mestre Jesus, ao questionar:"Aquele que nunca pecou atire-lhe a primeira pedra. "
    Essa questão é tão familiar na vida real e, na virtual mais ainda. Todo mundo quer um perfil impecável, suas qualidades expostas e propagadas aos quatro cantos. Ninguém comete um erro sequer. Não se pode explodir, expressar um momento de fraqueza ou de estresse, que os outros se unem em uma comissão julgadora e logo apontam o dedo contra quem foi humano o bastante pra retirar a máscara da falsa verdade. Ora, todos temos imperfeições. Estamos distantes da santidade. Mas tendemos a julgar ao outro como se fôssemos superiores a ele. Gosto de gente de verdade. Que não cria um persona pra impressionar a quem quer que seja. Costumo dizer até que, quem gosta de mim, gosta de verdade. Porque apesar de todas as meus defeitos, quando alguém me ama incondicionalmente, é porque o amor é verdadeiro. Quando fico íntima de alguém, faço questão de mostrar os meus dois lados, o A e o B.
    Amei estar aqui, amiga!
    Uma semana iluminada pra você e os seus.
    Beijinhos.

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  11. OI TAÍS!
    FERNANDO PESSOA E SUA MAGISTRAL FORMA DE DIZER AS COISAS QUE SABEMOS E QUE NEM SEMPRE TEMOS CORAGEM SUFICIENTE PARA FAZÊ-LO.
    ÓTIMO POST AMIGA.
    ABRÇS

    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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  12. Que escolha maravilhosa, o eterno Fernando. obrigada! Abraço

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  13. Fernando Pessoa, um poeta sem disfarce, corajoso...Uma poesia que poucos escreveriam.
    Um abraço, Élys.

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  14. Olá! Nada como ter como exemplo literário um grande poeta como Pessoa, não? Preciso sempre de incentivos assim! abraços

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  15. Minha muito adorada amiga Tais, dos Pessoas que conheço o Alvaro de Campos é o que mais me traduz,ou diz o que não teria coragem de dizer e sentir,mas necessário,para sobreviver-mos a este mundo louco mundo. Não sei se é bom ou não,mas trago muito deste Eu de Pessoa, porque ele sai da zona de conforto, aliás a poesia de Pessoa nos joga na cara, na alma,no coração o que talvez não quiséssemos, para nós e para ninguém, mas existe e é melhor saber por ele, por suas palavras,pelo seu gênio, pela sua mais pura e louca e profunda poesia. Obrigado amiga, sempre me surpreendendo neste blog que tanto gosto. A poesia salvará o mundo.
    ps.Todo meu carinho meu respeito e abraço.

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  16. Taís!!! Eu não acreditei quando vi que tu postou o meu poema preferido forever and ever!!! \0/
    Quando eu era criança, adorava os poemas da Cecília Meireles, depois na pré-adolescência aprendi a amar as várias faces de Fernando Pessoa. Achava fascinante como ele conseguia escrever com tanta eloquência e diferenças de personalidades extraordinárias com seus heterônimos. Mas esse poema de "Álvaro de Campos" foi o primeiro dele que conheci e me identifiquei de cara.
    Eu, que nunca suportei gente "certinha", "casta", "santa", "perfeita", "impecável" e que muitas vezes costuma ser mal vista por agir com sinceridade.
    Há quem me julgue arrogante... Ora, arrogante é quem não assume o que pensa, o que é, suas imperfeições! Que fala as coisas na cara, não manda dizer! Ou não omite.
    Ninguém é santo não, todos temos nossos pontos fracos, a diferença é que quem vira o "Judas malhado" é quem se mostra vil, parasita, ridículo, covarde que se agacha de um soco. Essa é a real.
    Adoro vir aqui, mas acho que isso já está até cansativo de comentar né, companheira das minhas madrugadas. :))))))
    Beijo grande e um fim de semana fantástico para ti!

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  17. Anônimo14:17

    Oi Taís, é a Vi, quanta verdade, é difícil conviver com pessoas que nunca revelam seu lado"escuro" e ainda cobra da gente perfeição.
    Amei ler Fernando Pessoa.
    Beijos,Vi

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  18. Oi Taís, é a Vi, deixei um recado como anonimo, porque não estava conseguindo enviar de outra forma, vamos ver se esse vai.
    Beijos,Vi

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  19. É com muita alegria que encontrei aqui poesia do Fernando Pessoa.
    Ele escrevia bem sobre as pessoas, parece que conseguiu ter um
    bom entendimento sobre a alma humana.
    Desejo que se encontre bem.
    Bj. e votos de bom fim de semana.
    Irene Alves

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  20. Ah!! Que prazer inenarrável ler esta poesia!!
    Obrigada!!

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