3 de abril de 2011

COISAS DE TURISTAS



- Tais Luso de Carvalho

A gente conhece um turista de longe: um ser deslumbrado, também deslumbrante de espírito, vestindo bermudão ou abrigo, tênis, camisa solta, máquina no pescoço, sorrindo e clicando; clicam até o porteiro do hotel.  O nosso lado de turista é cômico: minha mãe tirou uma foto pegando a mão do guarda da Casa Rosada - na Argentina. 

Há anos eu fui uma turista deslumbrada, cada cidade que conhecia eu queria morar. Sonhava com uma casinha romântica naquele tal lugar! Até hoje meu pessoal não esquece isso. Daqui a 50 anos estarão falando.

É próprio do turista pensar que só existem maravilhas na terra dos outros; a gente já sai com uma ideia pré-concebida de que longe de nossa cidade é que está o luxo, o exótico, o espetacular, a arte, belas praias... Tudo para ser admirado. Mas, e aqui? Temos praias lindas, mas a que vale a pena e deslumbra, fica do outro lado, nos quintos do planeta. Chegamos lá e não é tudo aquilo que estava na foto; um pouco menos, né? Mas a gente paga pra ver. Foto engana; dá outra dimensão, outro colorido para as coisas. Mas beleza existe, sem dúvida que o planetinha é lindo.

Não existe turista que não se entupa com as lembrancinhas do lugar. Há muito tempo - nos meus 18 anos - viajei para a Europa. Lembro, quando vim de Paris trouxe um daqueles souvenirs do Louvre - Monalisa -, numa madeira que era uma casquinha. Durou pouco tempo. Trouxe, também, uma réplica da Torre Eiffel que se desmontou pelo caminho; trouxe 50 bolachas com marcas de chope; guardanapos dos restaurantes; entradas dos metrôs; entradas dos teatros; trouxe a nota fiscal do hotel para guardar de lembrança, copos etc. Muitas lembranças, como se eu nunca mais  fosse voltar.

O mais hilário foi meu retrato de corpo inteiro, desenhado por um jovem artista da praça de Montmatre. Trouxe com tanto entusiasmo que parecia que estava trazendo uma obra de Renoir! Aqui, a 200 metros de minha casa, os artistas retratam com igual perfeição aquele ser deslumbrado, comendo batata frita - que era eu. Mas era de Paris!!!

O problema é que tem gente que faz isso com 50, 60 anos! Mas, o turista não tem idade: ele baba sempre. A não ser que passe por uma metamorfose e depois se dê conta de certas aberrações. Tem gente que traz pedrinha do Egito, uma folhinha do Monte das Oliveiras, um rosário feito com pétalas de rosa de algum lugar sagrado, um punhado de grama da quadra de tênis de Wimbledon, e coisas das mais surrealistas que existe na cabeça de um autêntico turista. Eu trouxe quilos de inutilidades que já me desfiz. Só fiquei com minhas fotos com cara de pateta.

Bem, mas em algum lugar eu quero chegar com esta crônica:

Aos domingos, almoçamos sempre num shopping: um restaurante show de bola. Um lugar aconchegante, cheio de mesinhas e com um pianista tocando música ambiental. Tudo muito calmo. Se fosse em outro lugar, numa rota de turismo, seria algo fenomenal. Depois do almoço passeamos pelas lojas e sentamos numa cafeteria pop, programinha para descansar a carcaça.

Pouco percebemos que em nossa cidade existem lugares pelos quais os turistas de longe também babam. Babam tanto quanto nós nas cidades deles. No fundo todos somos iguais.

É óbvio que é válido e gostoso viajar. Mas a gente tem uma mania desgraçada de valorizar a terra dos outros, e esquecemos que a nossa, o lugar em que vivemos e que sentamos nossas raízes, é lindo.

Na verdade o planeta é maravilhoso, a arte feita pelas mãos dos gênios é deslumbrante. O feio é quando  o homem mete a mão e destrói tudo na ânsia de se abastecer. Naturalmente me emociono quando vejo o passado ainda preservado.

Quando você  for viajar, sente numa praça movimentada e fique observando as pessoas, o movimento da cidade, das lojas, dos bares, o sobe e desce do cotidiano... você se dará conta de que a vida das pessoas daqui como as de lá se parecem muito; mas, para elas o lugar onde moram se tornou banal, pouco encanta; para nós é um sonho!

Lembro do momento em que o avião entrou em céu brasileiro: eu chorei. Pude constatar a força das raízes. Sou brasileira e tenho um coração que bate por esta terra, tenha ela os problemas que tiver.

Hoje, a minha terra é o melhor lugar do mundo, e peço a ela mil anos de perdão se algum dia vacilei por seus encantos.


31 comentários:

  1. E o turismo prevê exatamente isto. Vendem um local comum como se fosse o local mais raro do mundo e, nós, com 18 anos ou não, podemos cair no momento, mas depois passa...
    Não há lugar melhor que a casa da gente!
    Um grande bj querida amiga

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  2. Por que 'raios' ficamos boquiabertos em outros lugares? Porque viajando a gente "tira" o tempo para olhar e se encantar. Muito triste mesmo ter que sair para enxergar...
    Decidi: vou sair por AQUI e ver tudinho de novo...com certeza, as maravilhas estão bem aqui,debaixo do meu nariz...valeu o "toque"
    mil beijos

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  3. Olá Taís, concordo contigo em tudo. Principalmente quando tu falas que a terra onde a gente vive é o melhor lugar do mundo. Bjs. Umdianocampo.blogspot.com

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  4. Paga ou Vais a Pé

    Um turista pretende alugar um barco para dar um passeio pelo lago Tiberíades. Pergunta o preço à hora.
    — Mil euros — responde o empregado.
    — O quê?! Mil euros! Mas isso é incrivelmente caro! — insur-ge-se o turista.
    — Não se esqueça de que este não é um lago qualquer. O senhor está no Tiberíades, o lago que o próprio Jesus Cristo atravessou a pé.
    — Não me espanta nada! Com estes preços!

    Abraço.

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  5. Olá Taís,
    sou obrigado a te bajular mais uma vez. Mas também quem manda você escrever tão bem?
    Amei a crônica!!! E digo a você que eu moro num lugar lindo, trabalho na cidade maravilhosa...Ainda vou passear na serra gaúcha. Sei que é linda e se come bem...Mas não comprarei nada de bugigangas (já fiz isso e depois me livrei de tudo)
    Beijos meus e de Loyde

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  6. Olá Taís
    Tive um tio que quando se aproximavam as férias e via o nosso entusiasmo quando íamos viajar nos dizia: - porque que não ficam por aí a descansar sossegadamente? As pessoas são todas iguais! As terras são todas iguais!
    Claro que eu não concordava com ele e continuo a não concordar. É certo que o ser humano é igual no mundo inteiro: nascemos da mesma forma, temos as mesmas necessidades, somos seres frágeis e vamos ter todos, o mesmo fim. Mas tirando esses aspectos básicos, que é comum a toda a humanidade, no resto, nos outros planos, somos todos diferentes, com milhares de culturas diferentes no mundo e as terras também são diferentes, são o reflexo cultural de cada povo.
    Concordo completamente quando diz: que muitas vezes, nós visitamos outras terras e ficamos fascinados, com essas terras, mas esquecemo-nos de apreciar a nossa cidade a nossa terra.
    Mas eu acho que isso faz parte do espírito do “Turista” um certo teatrinho que o período de férias nos faz transcender.
    um abraço

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  7. Desse tipim mesmo Taís. Rsrsrs
    E o pior é comprar as bugingangas de feirinhas e depois pagar excesso de bagagem, sendo que na sua cidade está entupida das mesmas coisas. Sabemos que camelódromo é igual em toda parte, mas quando vemos outra pessoa portando ou usando a mesma porcaria que a gente, temos a opção de dizer que "o meu foi comprado em tal lugar." Ou seja, o meu não é tão fuleiro.
    Adorei seus textos! Seguir-te-ei.

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  8. Poxa,Taís... Me vejo obrigado a confessar que sou um turista ridículo. Aqui em casa tenho, por exemplo, dezenas daquelas garrafinhas de areia colorida típicas de... de... bom, de todo o lugar, né?

    Tenho também umas 5, 6 daquelas baianas típicas da Bahia (e do Nordente todo, certo?).

    Barquinhos com inscrições? Uns 8.
    Imãs de geladeira de "Lembrança de..." - 15
    Além disso tenho pratos e quadros típicos Deus sabe de que lugar...

    Deixa eu começar a fazer "uns pacotes" para a Europa! Ah, aí sim! Vou ter que alugar um galpão.

    Enfim, não me falta nada. Só a camisa florida.

    bjo
    Cesar

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  9. o outro é sempre pior e mais defeituoso que nós. Mas com referência a lugares, o do outro é sempre mais "tudo" de bom que o nosso. Vai entender cabeça de gente.
    As lembrancinhas...prova de nossa superioridade sobre o outro. sim, pois o nosso "vizinho"(para não dizer, parente e amigo) aquele serzinho inferior a nós tem que sabeer q fomos "àquele" lugar e ele não.
    Adorei o texto!

    Li o comentário do Cesar, e estou aqui imaginando as baianas, as garrafas de areia, os imâs, e tudo mais...dei muita risada...Mas os da Taís...guardanapo, ingressos...! kkksupera...

    bjs

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  10. Oi Tais
    Eu também já fui turista deslumbrado, hoje com a maturidade sei separar as coisas. Todos os lugares têm suas belezas, mas seus problemas também. Já não compro milhares de lembrancinhas e nem carrego mil malas.
    A unica coisa que ainda não aprendi a controlar são as centenas de fotos que tiro, isso é compulsivo.
    Beijos

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  11. Bom dia,Taís!!

    É um comportamento bem típico!!!
    Parece que só aprendemos a valorizar o que temos, quando estamos longe...bate aquela saudade!!
    Adorei a crônica!!Tão real...tão perfeita!
    beijos!!
    Bom início de semana!

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  12. Taís, nunca andei por terras estrangeiras.Mas concordo em absoluto com você;nos arredores de onde moro existe floresta, lagos, rios, muitos pássaros, muitas frutas... o paraíso dos turistas. Disso eu só sei de ouvir falar, ver mesmo nunca fui.Mas é como aquele ditame popular: a galinha do vizinho é sempre mais gorda que a nossa.
    Abração!
    Conte com minha volta.

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  13. Nossa Tais quanta verdade junta, rsrsr...
    Sai da cidade que nasci, e só agora me dei conta o quanto amava aquele lugar...
    Ah, diz aí, vc uma bruxa ou coisa do tipo!?! Siiimm, sou libra! Agora diz aí uns números, pra quem sabe eu ficar rica da Silva!
    Obrigada viu, adorei suas visitas!
    Bjoos!

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  14. Taís,que crônica interessante,bem suas escritas são extremamente interessantes sempre....Hoje passei pelo blog da amiga Malu e li seu texto Nós,Mulheres,fantástico.Sempre digo a você que ser poeta é ser rico,pois pode dizer o que sente e o que faz os leitores sentir.Sem mais palavras.Um grande beijo!

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  15. oi Tais,

    adorei esse seu mundo...
    vou me acomodar...se quiser fazer uma visitinha deixei a porta aberta,pode entrar...

    beijinhos

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  16. Verdade! Muito bem observado e registrado.
    Beijos e bom dia!
    Carla Fdisendegernanda

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  17. olá, Taís !
    conheci seu blog através da Malu ,fiquei maravilhada com seus textos,são perfeitos...
    sucesso pra você !!

    abraços.

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  18. Em todo lugar que vou quero morar.
    Belo texto. Parabéns!
    Kenny Rosa

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  19. Acho que todos nós passamos por essa fase de turistas deslumbrados.
    Uma coisa que ainda consegue me encantar nas viagens é a paisagem diferente.
    Beijos.

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  20. Amiga!
    Ando com saudades de ser turista!!! rs
    Beijos meus, lindona!

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  21. Eu acho que tem uma mistura de sensações aí, Tais. Tem o desejo de mostrar que a gente é cosmopolita, tem o deslumbramento, tem o estranhamento e tem a bobice mesmo. hahahah! Um senhor da minha cidade certa vez foi à praia com a nossa família. Acho que o meu pai o levou só para sacanear depois. Ele só havia ouvido falar do mar, nem de televisão conhecia. Ficou tão pasmo que trouxe para casa várias garrafas (de coca tamanho família) cheias de água salgada. Dizia que se não o fizesse ninguém iria acreditar. hahahah! Eu já comprei até aquelas camisetas (risíveis hoje): escritas: "estive em tal lugar e lembrei-me de você." Abração, Tais. paz e bem.

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  22. Oi Taís,
    Como eu moro numa cidade agitada, procuro sempre lugares mais retirados e calmos para passear e, confesso sempre fico com vontade de morar lá (rssss).
    Mas, com todos os defeitos que eu possa encontrar por aqui, eu adoro a minha cidade, e sempre dou uma de turista, pelo menos no que se refere às fotos que vivo tirando.
    BJs.

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  23. Não posso dizer que já fui dessas também, porque nunca viajei para fora do Brasil, mas outro dia, caminhando no Condomínio onde moro, pude contemplar um entardecer que , tenho certeza, em lugar nenhum do mundo ele vai aparecer !!! Foi um momento sublime que me fez pensar: "Deus só pode ser brasileiro!"... Um beijo grande neste seu coração abençoado.

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  24. Taís, acho que já lhe disse isso em outra ocasião, (não me lembro se via e-mail ou comentário) - tenho amigos que conhecem o mundo inteiro mas, do seu próprio país, só conhecem as grandes capitais, ou as cidades e balneários mais badalados. Quanta incoerência!

    Isso é como morar numa casa plena de personalidade, bela, que possui inúmeros cômodos, - um completamente diferente do outro, e com sua própria história -, mas jamais sair da sala-de-estar. rsrs Nunca subir as escadas para ver o que há lá em cima; jamais ir ao sótão ou ao porão; não ter noção do que se avista do telhado; ignorar as flores, delicadas ou espinhosas, que colorem o próprio jardim e os frutos doces ou ácidos que inundam o seu quintal...

    Há um poema em que digo: Como sair de casa se dela nunca saí? Não vou a nenhum lugar sem mim! Acho que posso afirmar que conhecer a própria casa (por dentro e por fora) é a grande viagem. É a viagem que nos permite ir além. Porque depois, é possível ir a qualquer lugar do mundo e vê-lo como realmente é. Penso que é por isso, há turistas e... turistas.

    Como sempre, amiga, uma excelente crônica.

    Bjs, querida. E inté!

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  25. Querida Taís, escreve divinalmente.
    Excelente texto. Os turistas são iguais em qualquer parte do mundo.
    Existirá melhor lugar para passar férias do que o seu próprio país?
    Por norma há a febre de conhecer outros países, sem conhecer primeiro o nosso.
    O mercado do turismo é uma exploração mas existe quem goste...
    Adorei o seu texto. Tem realidade.
    Bom fim de semana.
    Bjito e uma flor

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  26. Olá Taís,
    Eu aqui de novo.
    Tem um convite pra você lá no "Guardados e Achados".
    Bjs.

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  27. Excelente minha amiga. Eu adoro viajar mas sou franca sabe-me tão bem quando regresso a casa, não há como o nosso cantinho.
    Bom fim de semana
    beijinhos
    Maria

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  28. Turistas são muito engraçados! Também viro criança em outras cidades.
    Bjoo!!

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  29. Bem lembrado Tais, sempre queremos lembrar,que por lá estivemos,talvez nem sejam as lembranças que queremos trazer ,mas sim deixar
    nossas marcas pelos lugares que passamos.
    Também bem lembrado, desde que não seja destruição, haja vista, como disse, nosso “Planeta” é um lugar encantador...
    Adoro ler tuas crônicas sempre descubro e aprendo muito com elas...
    Tua eterna fã...Izildinha

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  30. Olá Taís!

    Sua crônica retrata muitíssimo bem essas facetas dos turistas, alguns com preferências bem exóticas. Penso que o ser humano seja ele de onde for, ou onde quer que vá, ele tem uma necessidade ou uma fixação pelo registro "material" de suas passagens, além da memória natural, seja para exibí-lo a outrem, ou para guardar para si mesmo, como se duvidasse da própria capacidade de armazenar o que pode ter representado um momento importante, especial. Invertendo os papéis, acho que cada mania com seu louco (risos). Eu particularmente não aprecio nada de bugingangas, souvenir, estas coisas, mas faço questão absoluta de registrar em fotos e muitas, cada lugar que passo.

    O outro aspecto que você abordou brilhantemente, sobre valorizar as belezas que temos bem pertinho de nós, isto sim é realmente muito interessante, pois pode ser através de um olhar mais atento para o que nos acerca, que derrepente descobriremos mais encanto para nossos dias.
    Parabéns por tão bela crônica.
    Um grande abraço,
    Celêdian

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  31. Muito bom mesmo esse seu texto.
    Ha uma frase em ingles que diz "A man's home is his castle" - ou seja - " O Lar de um homem é seu castelo" Nada explica melhor essa sensação de aconchego e proteção que nossa morada nos da, certo?
    OBS: a frase diz "homem" por machismo de quem a criou... entende-se "pessoa" que fice neutro.

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