3 de setembro de 2016

LYA LUFT / O LADO FATAL




          - Poema 14 - do Livro: O lado fatal


          Ele gostava de falar:
          era como se precisasse muito ser compreendido,
          e sempre me dizia isso.
          Nunca o vi em palanques e comícios
          nem o conheci na juventude.
          Mas para mim falava, recitava, argumentava
          horas e horas sem se cansar:
         “Falo com você coisas que nunca pensei dizer
          a ninguém.”

          Eu me concentrava para ouvi-lo:
          os terrores da infância, os tormentos
          e entusiasmos da mocidade,
          as maduras paixões, as decepções incuráveis,
          as preocupações que cada dia mais lhe vincavam
          o rosto.

          Às vezes, quando ele dormia, eu espreitava:
          agarrando minha mão, ele parecia
          um triste menino solitário.



_____________________________________
O lado fatal – Rio de Janeiro. Record 2011 – pg 39



O livro O lado fatal (poemas) nos atinge por sua pungência e precisão, elaborando perdas em geral – especialmente perdas para a morte. Nesse livro de poemas, Lya Luft reforça a intensidade da dor e intensifica a perplexidade: e agora? Ao verbalizar essa dramática emoção, a autora tenta restruturar sua vida num  'passo a passo' do cotidiano, que traz alívio e conforto. 


Poemas que mexem com nossos sentimentos e com a vida.  Um estudo da alma humana diante da grande fragilidade que  negamos em falar, por vezes. Apagamos como se não existisse. Mas como não falar? Como não se deixar tocar pelo sofrimento alheio, se todos nós um dia passamos ou passaremos por drama igual? É nesse conjunto de poemas que Lya tenta elaborar a mais solitária emoção humana.
Deixo aqui essa indicação:  poemas doloridos, mas belos e que nos levam a muitas reflexões. 





33 comentários:

  1. Oi, Taís Luso !
    Fácil o registro das angústias.
    Difícil, encontrar alguém para
    escuta-las, segurar as mãos...
    Gostei do texto e agradeço a
    partilha, amiga.
    Um feliz domingo e um carinhoso
    abraço.
    Sinval.

    ResponderExcluir
  2. Gostei do poema. Gosto da escrita de Lya Luft. Estive a fazer uma rápida pesquisa, mas creio que este livro não existe aqui. Há vários dela, mas esse creio que não. Depois vou ver melhor.

    Um bom domingo:)

    ResponderExcluir
  3. Gosto muito da nossa Lya! Escolheste bem! Ótimo domingo,bjs, chica

    ResponderExcluir
  4. Sempre fica 'um lado fatal' nas 'fatalidades' que a todos atingem. Há que se ter uma enorme capacidade de sublimação para o enfrentamento...
    Abraço.

    ResponderExcluir
  5. Acróstico

    O que resta é apenas o lado fatal
    Lado que nos impele ao infinito
    Aqui neste plano, coisa superficial
    Dado que vida e morte gera conflito
    Onde aquela a esta em tudo igual.

    Foi Lya Luft que com sua sapiência
    Acusa de seu homem, insegurança
    Tem autora completa e total ciência:
    A vida, sua plenitude nunca alcança
    Lidamos com o viver em turbulência.

    ResponderExcluir
  6. Uma ótima indicação para nós Taís!
    Sempre é bom nos aprofundarmos mais nos tristes poemas,mas repletos de sensibilidade dessa escritora gaucha Lya Luft.
    Obrigada por nos compartilhar esse lindo texto.
    Bjs-Carmen Lúcia.

    ResponderExcluir
  7. Obrigada Taís, por esta excelente partilha.
    Já várias vezes tive a oportunidade de ler escritos da autora mas nunca li nada dela, vou ver se encontro por aqui o livro por si sugerido.

    Um beijinho grato por participar no meu desafio
    Boa semana , beijinho

    ResponderExcluir
  8. Uma pérola este poema da Lya Luft
    Todos temos nossas angústias. O difícil é encontrar alguém disposto a segurar as nossas mãos quando estamos em transe de desabafo
    Uma linda semana
    Beijos

    ResponderExcluir
  9. Taisinha, “O poema 14”, do livro “Lado fatal”, é um excelente poema, e é também mais uma mostra do talento de Lya Luft, na sua reconhecida versatilidade: tradutora, romancista, contista, poeta etc.
    A tua postagem ganhou mais força com a bela escultura de Camille Claudel (“Profonde Pensée). Quê se quer mais?
    Beijinho daqui do escritório.

    ResponderExcluir
  10. Você trouxe um clarão de esplendor intelectual , num momento no qual, parece que a escuridão da imbecilidade social/politica cutuca nossas capacidades de reação a estes quadro de horrores que andam pintando por aí.

    E por esta razão,obrigado!

    Um abração carioca.

    ResponderExcluir
  11. Magnifico e belo poema de uma autora que não conhecia.
    Um abraço e boa semana.
    Andarilhar

    ResponderExcluir
  12. Me ha gustado lo mencionado me imagino que sus poemas son muy buenos, un abrazo.

    ResponderExcluir
  13. Excelente poema de Lya Luft. Gosto da poesia dela. Só tenho um livro que se chama "Para não dizer adeus". É um prazer lê-la.
    Uma boa semana.
    Beijos.

    ResponderExcluir
  14. Excelente poema, Tais.
    E grande Poetisa. E lúcida Mulher.

    beijo, minha amiga

    ResponderExcluir
  15. Oi Tais, que belo poema da Lya Luft.
    Uma excelente escolha e indicação!
    Uma linda tarde e boa semana!
    Beijos,
    Mariangela

    ResponderExcluir
  16. Não conhecia esta escritora e gostei muito do poema escolhido. A vida é um complexo de emoções que vamos vivendo a cada passo que damos e é preciso muita resiliência para superar algumas delas, bem doídas. A complexidade do ser humano nos leva muitas vezes a não conseguirmos sequer entender certas angústias que nos assolam, uns apertos no coração dificeis desaparecer e a tudo isto junta-se a complexidade dos outros que nos rodeiam e que devemos entender, não julgar e, se possivel agarrar a mão para de alguma form ajudar. E assim se vai construindo o nosso dia a dia com um emaranhado de sentimentos, de problemas, de fragilidades
    , fatalidades, calamidades; tanta miséria humana de um lado e tantos feitos gloriosos do outro. Há momentos em cada dia que nos causam perplexidade de tão diferentes; ficamos como que perdidos numa sociedade em que , numa simples caminhada pela rua nos podemos extasiar com um pequeno pormenor, como de repente um outro nos faz parar em puro desalento. É assim a vida, é assim o ser humano, somos assim todos nós, amiga. Gostei imenso e obrigada pela partilha. Um beijinho
    Emilia

    ResponderExcluir
  17. Caro amiga Tais, estou mais familiarizado com a prosa da Lya, mas tenho lido um que outro poema dela e tenho gostado.
    Um abraço. Tenhas uma linda semana.

    ResponderExcluir
  18. oi Tais, que ótima sugestão. Lya Luft é uma escritora completa e talentosa em qualquer gênero que escreva. Este poema facilmente poderia ser transformado numa prosa, num miniconto,... e continuaria atingindo o leitor da mesma forma. Já li alguns livros dela (Perdas & Ganhos, Mar de dentro, O tigre na sombra e Exílio) e em todos me encantei pela intensidade de suas palavras.

    Beijos. Boa semana que começa/!

    ResponderExcluir
  19. OI TAÍS!
    INDICAÇÃO PERFEITA, LER LYA LUFT É EMOCIONAR-SE E MUITO, ELA TECE PALAVRAS COMO POUCOS.
    ABRÇS AMIGA
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  20. Um belo e tocante poema, de uma autora cujo trabalho ainda não conheço muito...
    e por isso, maior relevância, ganha esta sua excelente escolha, Tais...
    Beijos! Boa semana!
    Ana

    ResponderExcluir
  21. Olá,Tais , boa noite,
    [Lya Luft,Poema 14]...sim, bela indicação e plena verdade, poemas doloridos, mas belos e que aprecio muito pela intensidade incomum, de sua própria vivência e em um "tom de conversa". E agora? Muito complicado perder um amor que era fadado a existir para sempre.
    Às vezes, um amor não tem tempo de perder o viço, o encantamento,o companherismo , a cumplicidade ; na espreita, um triste menino solitário que “Talvez tenha morrido na medida certa para nada se desgastar.”
    "de lá" hehehe, c não vai acreditar, tinha visto aquele vídeo antes de publicar ,porque , por coincidência, o título é igual ao do meu post ( ou/no caso, o meu post tinha o mesmo título) . Quando meu Checker acusa conteúdo duplicado ,vou lá ver o que é, até para não "plagiar" alguém sem saber. Hilário mesmo aquele vídeo, principalmente a "carinha" da Sor Virtudes, no final!hehehe!!! Obrigado pelo carinho, feliz semana,belos dias,beijos!

    ResponderExcluir
  22. Taís,

    Que bom gosto, a começar com a imagem da arte da Camille
    Claudel (uma mulher de uma história tocante) acompanhada
    da arte poética (literária) da Lya Luft, singular na
    profundidade textual que devolve para o leitor a reflexão
    no sentido mais amplo, que acrescenta interiormente.
    Aprecio muito a literatura no todo da Lya Luft e
    aprecio muito também este seu espaço de arte, minha amiga!
    Beijo.

    ResponderExcluir
  23. Uma escolha magnifica.
    Beijinhos
    Maria

    ResponderExcluir
  24. Taís: o mínimo que podia fazer, era vir ao teu espaço agradecer a tua presença no meu, assim como o valioso comentário que deixou no meu poema "Ardem-me os olhos".
    Vou tentar seguir as tuas preciosas e ricas partilhas.
    Grata. Bjo :)

    ResponderExcluir
  25. Depois de um longo período de ausência, aqui estou a ler seus maravilhosos poemas... Sejam eles pequenos ou grandes, cada qual trás o seu diferencial com sua riqueza em conteúdo...
    bj em seu coração ótimo feriado..

    ResponderExcluir
  26. Ainda não conheço a autora, pelo que, fico especialmente grata
    por esta excelente abordagem e divulgação.
    Um grande e verdadeiro orgulho para os sul-rio-grandenses.
    Já consta da minha lista de talentos...
    Gostei muito do 'post'.
    ~~~ Abraço Tais ~~~

    ResponderExcluir
  27. Um poema que toca a emoção. Escolheste bem para conosco compartilhar.
    UM abraço,
    Élys

    ResponderExcluir
  28. No importa que yo crea entender lo que leo lo que si importa es que parece que yo soy la única persona que no escribe en vuestra lengua. Lo siento pero no puedo evitarlo.

    Lo que sí puedo decir es que la página ha quedado completa y bellísima. Un abrazo. Franziska

    ResponderExcluir
  29. Olá amiguinha: Os dramas alheios ou nossos próprios são na sua grande maioria parecidos ou iguais, afinal somos seres humanos, parecidos e às vezes muito iguais. E seria muito bom se em generosidade e paciência fossemos também bem iguais, para ouvirmos o sofrimento alheio ato que por si só já seria um consolo. Esse poema da Lya Luft em forma de prosa mostra esta generosidade. E como tudo que ela escreve leva-me a refletir, é como um ensinamento de vida.
    Suas duas escolhas não poderiam ser mais completas Lya Luft e Camille Claudel com esta escultura maravilhosa.
    Amei,
    beijinhos, Léah

    ResponderExcluir
  30. Pelo texto que escolheu...parece_me uma leitura interessante!
    Levo a sugestão... Bj

    ResponderExcluir
  31. Taís,
    Ah, Lya é sempre bom ler-te, agora pelas mãos de Taís, que sabe das coisas e das escolhas, abrindo-nos com este poema para a solidão que carregamos na pele.
    Beijo, Taís.

    ResponderExcluir
  32. Oi Taís, uma boa indicação e uma escolha perfeita de poema perfeito para ilustrar o pensamento. As perdas no caso de pessoas é um fantasma, que muitas vezes julgamos invulneráveis, mas quando acontecem todo nosso chão se escapa do nosso controle e vem esta angustia, este deixar-se perder que fazem das noites, uma longa e terrível viagem por porões sombrios;
    Grato pela partilha indicação.
    Abraço terno amiga.
    Bjs de paz.

    ResponderExcluir
  33. Bravo querida amiga Tais, acho que foi meu primeiro contato com a poesia da Lya, este livro me marcou profundamente para o que estava por vir na minha vida, entender as perdas, a dor; e ela faz de uma forma sublime, quase um apoio, um adeus sentido, dolorido e cruel, mas que é preciso dar, para prosseguirmos nossa história. Mas é um belo poema.
    ps. Carinho respeito e abraço.

    ResponderExcluir

MEUS AMIGOS - SUA ATENÇÃO...

1 - Este blog 'não envia nem recebe comentários anônimos ou ofensivos'. Meu e-mail está na guia superior, faça contato.

2 - Entrarei na página de comentários quando alguma resposta se fizer necessária.

3 - Meus agradecimentos pelo seu comentário, sempre bem-vindo.


Meu abraço a todos.
Taís Luso