21 de maio de 2016

DESEMPREGO – Luiz Coronel







O homem no desemprego
é um homem amordaçado.
Esconde grito contido.
Por isso parece calado.

O homem no desemprego
rumina áspero ódio.
O tempo boceja inútil
sem agendas ou relógios.

O homem no desemprego
não tem passagens ou malas.
Move-se num vaivém
qual uma fera na jaula.

O homem no desemprego
parece perdido no espaço.
Manearam suas pernas.
Imobilizaram seus braços.

O homem no desemprego
é um habitante no limbo.
Diga qual diferença
entre segunda e domingo?

O homem no desemprego
é o mais só entre os sós.
Sabe-se mutilado, ferido
mas desconhece o algoz.

O homem no desemprego
é um homem no exílio.
Não tem idioma nem pátria.
É um trem fora dos trilhos.

O homem no desemprego
é um náufrago na tábua.
Ou um peixe asfixiado
num turvo aquário de mágoas.

Ao homem no desemprego
congelaram sua imagem.
O tempo rola seu filme
mas ele ficou à margem.

Ao homem no desemprego
o alambique destila
a salvação pelos copos
e o triste roteiro das filas.





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Luiz Coronel nasceu em Bagé / RS, em 1938. Bacharel em Direito, Sociologia e Política, reside em Porto Alegre, onde trabalha como diretor de publicidade. Criou e dirige a Exitus, empresa de publicidade. É compositor musical, possuindo diversos prêmios como letrista nas Califórnias da canção nativa.
Com mais de 50 obras recebeu prêmios no Brasil, Espanha e México. Com traduções para o inglês e alemão. 

Sempre ligado à comunicação e à cultura, há 20 anos é presença constante nas redes de comunicação gaúchas participando na condição de colunista e poeta que sucede Mário Quintana, em edições semanais de poemas no Correio do Povo desde 1996. Na Rede Pampa participa de programas televisivos semanais, na RBS escreve como colunista na coluna Pampeana do jornal Zero Hora. Luiz Coronel  foi o patrono da 58ª Feira do Livro de Porto Alegre.

- Um Girassol na Neblina / Exitus ed. 1997 pág 62








27 comentários:

  1. Olá, Tais,
    Poema que descreve na perfeição o que é um desempregado: um "náufrago" - bastaria essa quadra para definir o poema como perfeito, mas o autor percorre todas as nuances de emoções mal digeridas por uma criatura que se vê no desespero, na rua sem saída que é o desemprego - como doença cruel a dizimar todo o ser, célula a célula. A sensação de não ser, a incapacidade de participação activa na vida, tudo para o que foi preparado, o que o dignifica que o faz levantar todos os dias pela manhã, tudo isso lhe é tirado: preferível a morte rápida, porque esse é um morrer lento, sem direito a morfina.

    um bjo amigo

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  2. Um mal que está assolando muita gente do meu país... e do seu, Tais!...
    E que não me parece ir regredir nos próximos tempos, infelizmente... politico... vive discutindo sobre emprego e investimento, por aqui... e nenhuma solução de concreto me apraz ver que se vá conseguir...
    Durante anos, na Europa, os empresários visaram apenas o lucro fácil... e a Europa se desindustrializou... optando pela mão de obra barata de muitos países asiáticos...
    A Europa estagnou no crescimento económico... e os países asiáticos... vêem-se agora a braços com uma produção... que se calhar a grande maioria dos seus habitantes... não terá capacidade para adquirir... e o mundo continua sobrevivendo... de crise em crise... procurando-se o lucro, nos mercados especulativos... e com isso... comprometendo a restante economia, que continua funcionando, apesar de tudo...
    Um poema que aborda de uma forma magistral, este grande flagelo dos nossos dias...
    Beijos! Bom fim de semana!
    Ana

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  3. Amiga Tais, a escolha do poema veio a calhar em uma época que o que mata é mesmo o terrível mal do desemprego.
    Pior de tudo é que, muitos vão fazer entrevistas e até se saem bem, mas ao negociar os salários é que se percebe que, em época de crise todos querem se aproveitar, querem pagar metade do valor que este ganhava,(é pegar ou largar) coisa de louco isso, sei disso, conheço pessoas que estão enfrentando essa situação!
    Boa reflexão por aqui, sempre nos dá essa possibilidade, a de pensar!
    Abraços linda amiga!

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  4. Que mais posso acrescentar, querida Tais?
    E esgotaram o assunto! Resta-me concordar!
    Grande abraço.
    Jorge

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  5. Um poema que é um grito de dor e revolta!
    Obrigada pela partilha! Bj

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  6. Um homem desempregado sente-se um parasita,principalmente se
    a mulher também trabalha.
    E quantos estamos vendo em nosso amado Brasil que não conseguem um trabalho,até àqueles que possuem um nível de cultura acima do que pedem,mesmo assim são rejeitados.
    É uma verdadeira lástima,pois aí aparece a depressão e torna-se um homem inútil.
    É uma pena vermos tantos desempregados,mas temos que ter fé que tudo será mudado.Quem Sabe!
    Adorei ler Taís.
    Bjs e um lindo final de semana.
    Carmen Lúcia.

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  7. Acróstico

    Demitido recente de seu trabalho
    Elementar que tenha perdido chão
    Seu pensamento, pois nada valho
    E meu futuro será todo escuridão.
    Mas, por qual meta então batalho?
    Porque não sei donde tirar meu pão
    Represento eu o trabalhador falho?
    E minha vida toda é uma negação?
    Gasto, já sou carta fora do baralho?
    Ando por aí sem rumo ou direção?
    Decerto nesta vida não vejo atalho
    O que desejo é uma nova função.

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  8. Um poema muito sensível e muito lúcido de Luiz Coronel. Obrigada pela partilha.
    Beijos.

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  9. É uma triste realidade, onde o cidadão, quase sempre, não tem culpa nenhuma! Bom o seu companheiro de letras, querida Taís!
    Grande abraço.

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  10. Essa triste realidade vem acontecendo em número assustador e os pobres desempregados mostram um rosto sem cor desfigurado pela dor e desolação de não poder por na mesa o abençoado pão
    Grande sensibilidade do poeta
    Uma linda nova semana minha amiga
    Beijos

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  11. Pobre desempregado!E cada vem mais deles nessa nossa realidade! Linda poesia, gosto muito do Luis Coronel! beijos, tuuuuudo de bom, linda semana! chica

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  12. Muito legal estas postagens apresentando escritores e pessoas que fazem a diferença e agregam cultura à nossa nação. Parabéns neste poema da realidade triste de um exercito de pessoas que vivem nesta margem, sem sua moral, sem sua paz, sem sua vida.
    Hoje um especial abraço amiga e que a nova semana seja de paz e abençoada para voces.
    Bjs de paz.

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  13. Desculpe-me pela demora desta visita, andei muito ocupado com milhares de afazeres, mas em fim aqui estou a desfrutar-me deste lucido poema no qual traz a tona o fantasma do desespero que assola num todo os continentes fortes e os menos desfavoráveis....
    Como disse Carmen... Um homem desempregado sente-se um parasita,principalmente se
    a mulher também trabalha.
    E quantos estamos vendo em nosso amado Brasil que não conseguem um trabalho,até àqueles que possuem um nível de cultura acima do que pedem,mesmo assim são rejeitados.
    É uma verdadeira lástima,pois aí aparece a depressão e torna-se um homem inútil.
    big bj em seu coração...

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  14. Mana não conheço o poeta, isto é sua obra. O poema mostra uma triste realidade,que é infelizmente a de muitos brasileiros.O poeta dissecou todos os pontos de dor e desespero que o desemprego causa numa pessoa.
    beijinhos, Léah

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  15. ... o tempo que rola tal filme... estressa-nos em pensamentos decepcionantes diante do que cada um recebe... Plantamos todos, mas na colheita... quanta diferença! Resta a depressão e o descrédito da nossa capacidade!
    Não conhecia o autor. Realista ao extremo e situado nos acontecimentos atuais. Obrigada pelo post!
    Abraço.

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  16. É a triste realidade que cada vez atinge mais pessoas.
    Gostei deste poema está muito bem elaborado.
    Um abraço e boa semana.

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  17. Aqui continuamos a sofrer desse mal, infelizmente. A crise continua em toda a Europa e Pprtugal, por mais que tente não consegue que a economia saia da estagnação, continuando desemprego em elevado número. Com o Brasil está a acontecer o mesmo e vai demorar para que as coisas voltem ao que eram. Este poema retrata com perfeição o sofrimento de um desempregada, Tais, a dor que deve sentir não tendo um pão para colocar na mesa dos filhos. Enquanto fiz voluntariado na loja social vi pessoas irem lá pedir alimentos, com lágrimas nos olhos; marido e mulher tinham emprego, perderam-no os dois e , sem familia que os pudesse ajudar, viram-se obrigados a pedir auxilio na segurança social, Muito, muito triste. E, olhando esse girassol, digo-te que é a flor de que mais gosto, talvez pq se assemelhe ao ser humano; feliz ergue a cabeça para o sol, dando ao amarelo das sua pétalas um brilho fantástico; mas, se o sol se vai, se fica sem luz, baixa a cabeça, triste, parecendo que nada o ssduz. Não é assim o ser humano? E o desempregado? De certeza que para ele não há sol, não há luz e nada, nada o seduz.Amiga, um poema triste, real, mais que faz doer e muito. Beijinhos e até breve
    Emilia
    n

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  18. Essa é a glória do poeta! Extrair poesia da dor, do desamor, das mágoas, dos sentimentos tristes como esse tema maravilhosamente explanado pelo Luis Coronel. Parabéns, beijos querida

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  19. Um país que está perdendo valores....
    Bjbj Lisette

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  20. Um homem no desemprego
    É um triste homem olvido

    Lindo, adorei.
    Beijos no coração
    Minicontista2

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  21. Um homem no desemprego vive uma triste situação.
    Um abraço,
    Élys.

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  22. Cara amiga Tais, este é o nosso grande Luiz Coronel, que dispensa comentários, fazendo uma bela descrição poética de um tema muito triste. Estive desempregado por duas vezes, menos mal que por pouco tempo, e mesmo assim foi bem desagradável.
    Um abraço. Tenhas uma linda semana. Ah, depois de alguns dias enfarruscados, eis uma linda tarde de sol.

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  23. UN TEXTO MUY, MUY REFLEXIVO Y TRISTE...!
    ABRAZOS

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  24. Gloriosas palavras poéticas. Belíssimos textos. parabéns

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  25. Oi Tais
    Obrigada pela visita
    Beijos
    Lua Singular

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  26. O desemprego diminui, desvaloriza e deprime o homem. Uma amarga experiência do passado que carrego na bagagem.

    Abraços,

    Furtado.

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  27. Olá, Tais. bom dia.
    Gostei do poema do Luiz Coronel, versando sobre a triste realidade que cada vez atinge mais pessoas. E para combatermos essa triste realidade, é importante, não só cobrarmos os Governantes, como é uma questão de manter o bom astral, nutrir a autoestima e encontrar a motivação necessária para seguir em frente, apesar de tudo...Belos dias, beijos!

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