13 de fevereiro de 2016

A VIDA – UM TEMPO PRECIOSO





- Tais Luso

Foi num dia de grande temporal em que boa parte de Porto Alegre ficou destruída, e tudo ficou às escuras. A luz levou dias para normalizar. Não nos restava nada mais do que ficar acompanhando a calamidade da cidade através da cobertura da rádio Bandeirantes de Porto Alegre, cujos jornalistas saíram de carro numa cidade totalmente apagada, narrando como estavam as ruas e os bairros num momento cruciante. Tudo um caos.

Num certo momento notei que a minha vela estava no seu final, e não tirei os olhos dela nos seus últimos momentos, queria ver o final daquela chama, ainda viva e forte.

Criamos muitas metáforas. E lembrei da 'chama': no final vai se extinguindo, enfraquecendo até chegar ao último sopro Mas não; não foi isso que vi ao acompanhar a minha vela. A chama manteve-se forte e brilhante até o final, e de repente apagou-se numa fração de segundo.

E naquele instante tive noção dessa linha tão tênue que separa as duas pontas da nossa existência. E quando pensei numa das pontas, não tive como não pensar no tempo; o tempo que perdemos; o tempo que não valorizamos e que jogamos fora.

Comecei a pensar o tanto que temos pressa que chegue o fim de semana e esquecemos de viver os dias úteis; lembrei como ficamos ansiosos pelas férias, e esquecemos de usufruir o dia de trabalho e o ano letivo, o cotidiano por detrás. Ansiosos ficamos no fim do ano para a troca de calendário. Uma ansiedade para ir não sei onde nessa contagem que não para. Que sou envolvida e que não domino.

A vela se apagou; estava forte, viva, iluminada, mas me deixou pensando…
Naquela noite decidi que não quero mais pressa me acompanhando. Serei uma rebelde sem causa. Quero me libertar do relógio, do calendário, usá-los em compromissos relevantes, apenas.

Quero unicamente tempo; e que esse novo tempo - que almejo - não venha com pressa, que não me cobre mudanças bruscas, que não me imponha uma agenda tumultuada, que esqueça um pouco de me rodear... 
Agora quero calmaria.



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30 comentários:

  1. Claro que não será como Zeca Pagodinho: "Deixe a vida me levar", mas sabendo tirar proveito de cada minuto como se fosse o último, sobretudo nos grande momentos. Ah! se pudéssemos intensificá-los! Afinal, Heráclito, estava coberto de razão: nunca nos banhamos na água do mesmo rio.
    Se a fez pensar o último sopro da vela, o seu texto nos fez pensar sobre passagem do tempo, com uma leveza ímpar.

    Um bom final de semana, Taís

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  2. Que linda e profunda reflexão fizeste e realmente quando paramos para ver uma vela até o fim é exatamente como descreveste. Lindo te ler.Pena que a pressa nos rodeia! Gostaria de não ter hora pra nada,. mas sou uma danada pra controlar horário0s dos outros,rs Os meus, controlo bem. Seria bom largar isso, mas aqui em casa, ainda mais agora com a volta às aulas, o tempo é controlado mesmo! bjs, lindo fds! chica( ah, acho que minha pressa das coisas só vai passar quando o mu pavio se apagar...)

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  3. Belo texto como sempre, cara amiga Tais. Sobre o tempo, pois é, passamos pela estrada (tempo) sem vivenciar a estrada. Realmente nos preocupamos demasiadamente com o final de semana, com o final do ano, com as férias, de tal modo que até parece que no restante dos dias ( fração maior do nosso tempo) estamos de castigo.
    Um abração. Tenhas um lindo fim de semana.

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  4. Soneto-acróstico
    O tempo

    O tempo, seu fluxo é unidirecional
    Tem vetor único e prá nós não liga
    Ele, no fundo, não é bom nem mau
    Mas indiferente, pois há quem diga.

    Porquanto, para ele seja tudo igual
    O que fazemos nem sequer intriga
    Porque homem não é ser especial
    Revertê-lo? nem pensar cara amiga!

    Então que o tempo não tenha pressa
    Como vela que apaga, brilhe até o fim
    Inútil pensar onde acaba ou começa.

    O que nos resta é obedecê-lo assim
    Sempre otimistas e alegres a beça
    Observando o que será bom ou ruim.

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    1. Oi, Jair:
      Sobre o tempo ser irredutível, concordo sim; mas penso que eu posso mudar a minha maneira de sentir e de interagir; mudar o 'meu tempo'em relação à vida. Não deixar me atropelar por imposições do nosso cotidiano, das circunstâncias viciadas. É isso que quero dizer. Penso que algumas vezes é preciso botar o pé no freio. As escolhas sempre são nossas. E aquela 'linha', realmente me fez pensar...
      Grande abraço, amigo, obrigada sempre!

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  5. Adorei o texto!

    Beijinhos e continuação de bom fim-de-semana:)

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  6. Tais, há muito deixei agendas, doei relógios, celular vive mais desligado que ligado, curto o meu tempo, pois sei que ele é finito... Adotei viver com pouco e bem na simplicidade. Muito melhor. É uma aprendizagem difícil mas, tenho conseguido.
    Abraço

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  7. Belo texto!
    Os dias da semana tem sua beleza também, e nem todos os finais de semana são maravilhosos.
    Aprendi a receber a vida como ela se apresenta, e tirar o melhor dela, mesmo quando ela está pior.
    Abraços!

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  8. Oi, Tais!
    Seu excelente texto nos dias do "fast-tudo" de hoje, vem lembrar-nos que a pressa, o atalho, simplesmente abrevia o pouco tempo que vivemos neste mundo. Bela observação da chama, que certamente se apagará a qualquer momento, como nós!
    Beijos e boa semana!

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  9. Que lindo Taís! Um texto de grande sensibilidade.
    É nas horas difíceis que tiramos as verdadeiras lições de nossas vidas.

    Grande abraço
    Leila

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  10. Oi Tais boa noite, mas que lindo texto!
    E é exatamente isso que devemos fazer, seguir o curso da vida, com muita calma, aproveitando cada momento.
    Beijos, e uma ótima semana!
    Mariangela

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  11. SENSIBLE Y REFLEXIVO TU POST.
    ABRAZOS

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  12. Olá,bom dia, Tais
    ... muito triste acompanhar as notícias sobre a calamidade vindo daí de Porto Alegre, aqui em Sampa...corremos para cá,corremos para lá,muita pressa, nenhuma calmaria , para manter a nossa vela acesa, e vem uma lufada-quando não alheia- e apaga a nossa vela- tanto corremos para mantê la acesa, por vezes,até decidindo de forma errada, diminuindo a nossa qualidade de vida, o ter em relação ao ser. Há de se buscar mais tempo para si mesmo, de tomar as rédeas da vida,de realmente viver ,porque tudo passa tão depressa,e simplesmente não é possível voltar atrás...
    O maior presente de Deus aos homens , é, realmente, a vida, um tempo precioso!
    vim agradecer pelas orações,pelas palavras carinhosas,quando daquele meu momento péssimo, muito obrigado, bela semana,belos dias, beijos!

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  13. Bom dia querida Tais.
    Um assunto bem interessante, um texto excelente, muito bem escrito. O tempo algo tão importante, que muitos nem dão importância, ate o momento que percebe o seu grande valor. Um belo exemplo da vela, assim é a vida, muitos cheio de saúde, uma linda vida pela frente, se apaga em minutos por um destino que nunca de fato conseguimos achar uma razão e fica a dor e a certeza que o tempo é algo muito importante, que sempre devemos abraçar quem amamos, viver intensamente cada minuto permitido por Deus, porque amanhá pode ser tarde demais. Eu tenho um grande professor do valor do tempo, a morte, ela me ensina da importância de da valor ao tempo direitinho rsrs. Chuva forte assim que traz esses trastorno é chato demais. Uma linda semana para você, o Pedro e toda família. Enorme abraço.

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  14. Taís querida: Certamente tudo que você escreve mostra toda a sua grande sensibilidade, espero também que sua vida seja feita de dias calmos, porém alegres. E que continues escrevendo estes belos textos que são na verdade uma bussola para direcionarmos nossa consciência.
    Fique bem, muitos beijinhos Léah

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    1. Oi, querida Léah! São apenas reflexões e mudanças que precisamos fazer ao longo de nossas vidas. O que na verdade me fez lembrar muito de meu pai; homem calmo e com muita sabedoria. Ao falecer, foi igual a essa velinha, numa fração de segundos mudou de cor, um ponto que me impressionou bastante.

      Há poucos minutos estava assistindo, no canal Brasil, a vida de Saramago, o grande Premio Nobel. Espetacular. Porém chegaram, ele e Pilar - sua esposa - a um ponto tal de esgotamento, com tantos compromissos e viagens, que tiveram de parar, não estavam mais aguentando - dito por Pilar. Impressionante como ele estava debilitado.

      Beijos, querida.

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  15. Tais, uma bela abordagem. Todos somos levados pela ansiedade, por expectativas, deixando passar o que o instante presente nos oferece. Essa pressa de chegar a um destino específico nos separa de muitas alegrias, dispersas pelo caminho, em virtude de nossa desatenção. Gostei muito. Bjs.

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  16. Tais:
    Se soubermos reparar, como foi o seu caso, essas pequenas fracções de segundo alertam-nos para mudarmos o rumo da nossa vida.
    Um texto muito bem escrito que me prendeu do princípio ao fim.

    Beijinho

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  17. Minha querida amiga Tais que belas palavras, sempre me emociono ao ler-te, mas tens o dom de me surpreender, adentrei no clima caótico e o breu daquela noite em Porto Alegre, quase chego a ouvir o rádio narrando a escuridão, mas vi Moacir Scliar quando percebi a vela, num conto em que a vela estava ali, e pequenos mosquitos ou seriam pequenos seres voadores, voando ao redor da chama, que por vezes lhes queimavam as asas e eles tombavam...tenho quase certeza de ser um conto do Scliar, me veio rs...minha amiga a descriçaõ que me fazes pode levar a muitos lugares, em que estamos a mercê do tempo, da natureza, que maravilhosamente ou terrivelmente rs falaste no post anterior.
    "E naquele instante tive noção dessa linha tão tênue que separa as duas pontas da nossa existência." E a partir desta frase tudo fez sentido, mais sentido, outros sentidos para mim, estamos suspensos no tempo, ou voamos sem medir a velocidade, o tempo que realmente perdemos, achando que estávamos ganhando. Posso ter feito uma grande confusão com este comentário minha amiga, mas estou tão só e distante, que ao receber tua criação foi como um fogo de artifício, deste que se esparramam pelo céu em mil cores e formas e no meio dessa loucura toda descubro que meu silêncio, meu distanciamento necessário esta me permitido aprender a perceber como é bom viver em calmaria...sempre bom demais ter as palavras da amiga para perceber o rumo que estou tomando em minha vida.
    ps. Carinho respeito e abraço.

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    1. Olá, meu bom amigo Jair, nada como a calmaria, tenho aversão à multidões, à confusões, à ansiedade, à pressa. Fujo. Mas tem gente que adora, precisa disso como o ar que respira. Estou aprendendo a me respeitar como fui feita. Respeitar a minha natureza. Depois vem aquelas doenças psicossomáticas que acabam com a gente. Que nos derrubam porque seguimos a boiada. Tem boi na linha? Fico na minha, dou tempo e espero porque passa.
      Os anos ensinam. Se com eles não aprender nada, é melhor sumir (rs, olha a dramaticidade!) Acredite, viver na calmaria é um luxo!
      Comentário ótimo, não fez confusão, não.
      Grande abraço, amigo, fique bem - na sua natureza.

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  18. Passamos tantas vezes a vida a correr que nos esquecemos de viver.
    Com a idade aprendi a apreciar o presente, mas ainda não posso desligar o relógio e ainda tenho de correr bastante.
    Beijinhos
    Maria

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  19. Oi querida,
    Saber viver é uma arte. O dia tem 24 horas pra que correr nos afazeres, de repente ao sair de casa com pressa, 'puma', a gente cai e se arrebenta toda.
    Eu sou mineira bem sossegada, tô nem aí com a vida.
    Beijos no coração
    Minicontista2

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  20. Las `prisas forman parte de una cultura norteaméricana, frenética e impulsiva que vive solo para el trabajo y que cada vez más exigente.
    El trabajo debería clasificarse como una "adicción" y por lo tanto, debería ser tratado por los siquiatras como una enfermedad, ja, ja.

    Trabajar, sí. Sin agobios, sin prisas. Con la sabiduría de los pueblos antiguos, con tiempo para la familia, los amigos, los paseos y todo lo que supone placer. Estoy de acuerdo completamente.

    Un saludo muy afectuoso de Franziska

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  21. Oi Tais,
    Esses desastres da natureza é muito triste, pois muitos ficam d mãos atadas, mas têm os corajosos que jogam sua vida para salvar vidas
    Quem tem que ter pressa de viver é chegar à morte mais depressa.
    Quando me aposentei joguei meu reloginho surrado no lixo.
    A vida é muito curta e numa fração de segundo a morte nos sorri.
    Beijos
    Minicontista2

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  22. Poxa, que coincidência! Ainda agora postei no Face uma frase sobre isso, vê, que vou deixar a guisa de comentário. Beijos!: "Se você quer saber se aquele instante tá valendo a pena, pergunte-se se você gostaria que ele durasse um pouco mais. A vida é boa quando você torce prá ela não acabar. Perceba que a maior parte do tempo a gente torce pra acabar. Torce pro dia acabar pra poder chegar em casa, torce pra semana acabar, por causa do final de semana, torce pro mês acabar pro causa do 5º dia útil, torce pro ano acabar, por causa das festas e das ferias... Sem perceber a gente tá torcendo pra ela passar rápido. A felicidade é o contrario disso. A felicidade é quando você gostaria que não passasse. É quando você lamenta o final do dia, é quando você lamenta o final de uma coisa que estava fazendo” - Prof. Clovis de Barros Filho.

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  23. OI TAÍS!
    VERDADE TAÍS, VIVEMOS BEM ASSIM, ANSIANDO PELO FIM DE SEMANA E PELAS FÉRIAS SEM NOS DARMOS CONTA QUE QUANDO ELES CHEGAM É PORQUE PASSOU UMA SEMANA E UM ANO, NUM PISCAR DE OLHOS, E SENDO ASSIM, POUCO DISSO VIVEMOS.
    VIVER NA CALMARIA, UMA BUSCA QUE VALE A PENA.
    ABRÇS

    http://. zilanicelia.blogspotcom.br/

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  24. Bonita ilustração desta cronica reflexão. A chama e sua durabilidade.
    Há uma preocupação na durabilidade da chama e que esquece-se de viver a luz e o seu calor e num sopro final tudo roda. Lembro da ansiedade para atingir a maioridade e poder dirigir, quase que empurrava os dias e as horas.
    Passamos olhando e contando tempo e o melhor pode passar ao lado.
    Bonita inspiração Taís.
    Abraços com toda paz.

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  25. É bem verdade! Vivemos tão espartilhados, entre as recordações do passado e os medos e ansiedades do futuro... que pura e simplesmente não nos apercebemos do momento presente... diluído nas suas exigências tão próprias...
    Vivemos... sem dar conta de que estamos vivendo...
    Estranha vida esta...
    Mais um texto fantástico, que adorei ler... mostrando bem a nossa fragilidade... no tempo presente... e como este tempo é tão efémero e mal aproveitado, por vezes...
    Beijos
    Ana

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  26. É a Arte transformando momentos cruciais em beleza,em poesia,em filosofia de vida...Parabéns querida Tais pela transformação,pela sensibilidade que te toca,pelo talento incrível que possuis.Um grande abraço!

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  27. Bom dia Taís, uma crônica reflexiva que aborda o que acontece com quase todas as pessoas do mundo atual, a correria, a ânsia e preocupações com o tempo e com isso a vida passa sem nos darmos conta de que realmente precisamos de concentração espiritual para separar as coisas, é preciso que estejamos atentos às prioridades para o nosso viver, curtir os bons momentos sem pressa.
    Gosto da sensibilidade expressa em seus escritos.
    om final semana.

    Bjs!

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