3 de abril de 2009

A CHATICE DA PALAVRA 'TIA'




- Tais Luso de Carvalho
 

      Sempre achei esquisita, forçada e infantil essa coisa chata de tia, nome dado às professoras de nossos filhos. Que tia? Por que tia? Por que esta falsa intimidade? Tudo soa muito estranho: na semana passada uma sobrinha mandou a tia para o hospital, com traumatismo craniano, e ainda insistem neste falso tratamento. Há meses outra tia levou uns paratequieto na escola, e foi parar no Pronto Socorro.
Professoras são mestres e deveriam ser reconhecidas pela sua capacidade de ensinar; deveria partir delas cortar a tia. Isso tira a autoridade, fica aquela coisa de titia boazinha; as tias sempre são queridas! A criança deve aprender a lidar com suas carências e inseguranças em casa, junto à família ou numa psicoterapia, não numa sala de aula. Ali ela vai para aprender não só as matérias específicas como também disciplina. E tia é como avó, não ensina ninguém, só dá amor e carinho.
Será que não deu pra ver, ainda, que escola e família são duas coisas distintas? Que a professora, terminando a aula está ansiosa para ir para casa, para sua família? Ver seus filhos e seus sobrinhos verdadeiros? E que o aluno adolescente a chama de tia na gozação? E que onde há muita liberdade cai o respeito? Professora não é da família, portanto não é tia.
É bom para o aluno sentir firmeza numa professora, não numa tia. Eu tive ótimas professoras, e como era saudável para nossa formação respeitá-las. Era ótimo quando via minha professora no estrado, defronte ao quadro negro, e nós sentados na classe levantando o braço para pedir a palavra. A bagunça acabava quando ela entrava.
Se não houver respeito de ambas as partes, nada feito: e para haver respeito tem de haver uma certa distância. Professor é professor e aluno é aluno. Sempre foi assim e deu certo.
Ninguém vai para uma escola atrás de carências afetivas: vamos pra aprender, para conviver com nossos colegas, passar de ano e pegar o canudo. E levar na lembrança, a imagem da professora querida que cumpriu seu papel de mestra.
Mas hoje a moda é ser tia e tio; todos somos tios ou tias de alguém, mesmo sabendo que soa falso: sou tia do nenê da dona da lavanderia, do flanelinha da minha rua, do malabarista do semáforo, do vendedor de pastéis, balas e pirulitos.
Sou também tia dos sobrinhos das vizinhas. Nem eu entendo isso. É um parentesco que me confunde. Não sei, realmente, quando começou esta história, mas está se alastrando para os confins! Gostaria de saber seu real significado. Carinho? Moda? Vício de linguagem?
Lamento, mas não consigo ter a mínima queda para ser tia de estranhos. Nem engraçado consigo achar. E olha que tentei entrar na onda!


24 comentários:

  1. Rosários sejam bentos: O que significa um "paratequieto"? Deve ser regionalismo!

    Estive por aqui com uma interrogação atolada no cérebro.

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  2. Oi, Patrick, 'paratequieto' é sopapo, murros, tapas. Mas para a 'tia' ter ido parar no Pronto Socorro foi um murro violento! Fez um estrago!

    bjs.
    tais

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  3. nossa deveria ser lido numa reunião de pais e mestres esse texto, quando criança sempre mãe...pai me falavam vai com a tia..depois de uma certa idade achava feio chamar tia..como disse: soa falso.. até demais!
    quero que meus filhos sejam diferentes quanto a isso, professora é professora, tia é os irmãos do papai e mamãe!! adorei como sempre divina!! bju querida amando seu blog

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  4. Gostei do texto, tia. Brincadeirinha. Eu mesma quando menor (não faz muito tempo) chamava meus professores de 'tios', assim como a maioria das crianças. Então é mesmo infantil, como você disse (nos termos mais literais da coisa). Quando estiver mais velha acho que preferirei não ser chamada de tia, mas que dá saudades dos tempos em que eu é quem chamava, ah, isso dá.

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  5. Oi, Taís!

    Muito legal teu texto!

    Sou professora e concordo contigo!

    Paulo Freire escreveu sobre isso no belíssimo "Professora,sim; tia, não"! Intigando o debate sobre a ideologia que supervaloriza os laços afetivos... em detrimento do compromisso com a construção do conhecimento...

    Devemos desmitifica a ideia de que ser professor(a) é dom (e sendo assim deveríamos e poderíamos aceitar tudo passivamente - baixos salários, faltas de condições de trabalho, falta de tempo para estudar...e desrespeito).

    Ser professor(a) exige muito estudo, muita dedicação, muito compromisso com o conhecimento, muita amorosidade (e não permissividade!)...

    Abraços!

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  6. Tais Luso

    A moda de tia, creio que ainda não chegou cá. É tudo "Stora", mas há muitas mestras, que têm de ir ao hospital. Aí, como cá, mal está.
    Como isto mudou, dizer eu em casa que a "Stora", ralhara uí, era uma vez! A ousadia podia custar caro, com a mãe a ir no outro dia, falar com a professora, como aconteceu a outros educandos!
    Se os pais, não estão ao lado dos professores, como é que os filhos poderão ser os homens e as mulheres de bem e capazes, de amanhã?
    Daniel

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  7. Tais, como se diz hoje: "cada um em seu quadrado" Tia é Tia e professora é professora.
    Por isso menos intimidade e mais respeito.
    Um abraço,
    Dalinha

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  8. Não há duvida que a mudança no tratamento faz parte da época de transformação em que vivemos. Época em que a autoridade paterna/materna/professor, enfim adulto seja qual for não é mais visto pela criança como uma forma de respeito. O professor desceu do tablado... isso não deixa de ser bom, autoridade não é autoritarismo, o problema é que ao descer do tablado o professor deixou de ser autoritário mas descobriu que não sabe ter autoridade como sinonimo de respeito e consideração, é muito mais fácil ser autoritário.E ainda a mais, quanto mais autoritário ele tenta ser, mais é desafiado pois não há mais o medo da parte da criança. O autoritarismo se baseava no medo.Que bom que perderam o medo, mas não ouve a contrapartida, o respeito, a educação. Hoje a criança interronpe a todo momento os adultos quando estão falando, fazem birra, quebram objetos, ofendem e agridem os pais e tudo é deixado como está. Essa forma de agir vai se repetir na escola, no clube, na rua enfim....

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    1. Anônimo13:21

      E inverteu-se os valores, moleque hoje manda no pai, na mãe e no professor(a) Tio e tia e não senhor e senhora, ou dona, Seo é reflexo sim da falta de pai e mãe em casa. Em tempo, educação é em casa, escola é erroneamente chamada de educadora quando na verdade é instrutora, direcionadora de matérias curriculares. Pelo menos é o que deveria continuar sendo. Mudou-se para pior, mas isso não é gratuito não, é manipulação política da família e da escola, desenhando-se o sonho de grupos que pretendem que seu filho seja do Estado e não seu! acorda

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  9. Soy una profesora ya jubilada,llegué aquí y me detuve a leer este post, espero no ser inoportuna, pues me agradó el contenido del Blog y me uní a tus seguidores, creo que ser maestro es una gran responsabilidad, te seguiré leyendo, si lo apruebas,
    Saludos desde México.

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  10. Gostei muito desta postagem e, como professora, concordo inteiramente com a sua visão da função da escola. Não sabia que agora, por aí, era moda chamar a professora de tia. Por aqui não. É professora mesmo. Embora o importante não seja o que o aluno chama à professora mas a forma como o chama, algumas facilidades podem dar azo a maior desrespeito. Eu tive até alunos que, enquanto pequenos, me tratavam por tu. Contudo sempre com imenso carinho e o maior respeito. A escola é o local onde lhes é exigido que trabalhem, que se esforcem porque, meus amigos, não há milagres desses. Sem esforço não há resultados. Se pendemos para uma escola que pretende apenas ser o prolongamento da família, o local que,ainda por cima vai resolver os problemas sociais familiares e outros que não deveriam ser da sua conta...
    temos o caldo entornado. Iremos ter uma péssima fornada de educandos.

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  11. Oi, Tais !
    Adorei teus textos, só não consegui ler todos os que queria hoje. Mas volto para a leitura.
    Abraço

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  12. Cara Taís,
    Sou professora aposentada e devo dizer que apenas professoras da primeira fase do ensino fundamental - do antigo primário - aceitam e estimulam isso. É um ranço maternal. Assim que o aluno muda de fase - vai para o que era o ginásio - os professores, como eu, cortam logo o tratamento. Na minha opinião, o apelido infeliz tem a ver com o salário baixo: "tia" a gente não paga! Eu nunca aceitei ser chamada de "tia" ou "prof". Uma vez eu disse para um que pretendeu me chamar desse último modo deselegante, que eu não tinha estudado tanto para ser chamada daquele jeito.
    Feito o comentário, digo-lhe que gostei de recebê-la em meu "Literatura em vida 2". Por lá, também tenho um "Comentando...", em que emito opinião. Veja minhas últimas palavras sobre o mito da TPM, em "Comentando... 11".
    Aguardo-a de novo lá e informo que voltarei outras vezes.
    Eliane F.C.Lima (http://poemavida.blogspot.com)

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  13. Cristina16:37

    Olha,concordo com você,quando se refere que professor(a) e tia(o) não pode ter o mesmo peso.Pois o educador é um mestre,um profissional e não alguém da familia.Devemos nós educadores valorizarmos mais nosso trabalho ensinando aos alunos a nos tratar e nos ver como professores.

    Abraços!

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  14. Olá Tais !

    Vc tem absoluta razão em suas considerações sobre o termo "tia" usado para o educador, acho até que daí deve ter surgido as demais funções que foram atribuidas e lançadas sobre as costas do coitado do professor como: pai, Mãe, psicologo, médico, pedagogo etc. etc.
    Amei seu blog, até mais !

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  15. Anônimo20:24

    Oi,Taís, eu estava procurando no google a primeira poesia de Machado de Assis, foi então que me deparei com seu blog. Gostei muito da sua maneira de escrever. Achei massa duas de suas crônicas : A chatice da palavra tia e medo de barata.Aproveito para pedir, se possível, que você escreva algo sobre a Lei da Palmada ou Lei ficha limpa.Obrigada. Graça Araujo

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  16. Adorei o texto. Não sou professora tenho três sobrinhos e uma sobrinha e não gosto que outros me chamem de tia.

    Acho feio esta coisa de chamar professor(a) de tio (a).

    Sou do tempo (tenho 37 anos) que professor era pessoa chique, culta , elegante e para mim professor e Mestre.

    Os pais tem de educar.
    Fiz uma homenagem no meu blog para um casal de sobrinhos e uma professora deixou um comentário que fiquei emocionada " ela fala que muitas vezes sente-se como babá"

    Absurdo, triste absurdo.

    Bjos no coração e boa noite.

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  17. Anônimo01:22

    PARA MIM, CHAMAR AS PESSOAS DE TIO E TIA, COMEÇOU NA DECADA DE 70 NO ANTIGO JUIZADO DE MENORES, ONDE OS INSPETORES(AS) DOS INTERNOS ERAM CHAMADOS DE TIO OU TIA E O MENOR AO GANHAR A LIBERDADE, COMEÇOU A CHAMAR TODOS DE TIO OU TIA PARA GANHAR UMA MOEDA OU ALIMENTOS.NOSSO EDUCADOR PAULO FREIRE, EM UM DE SEUS LIVROS CRITICA ESTE COSTUME E DIZ:(TEMOS QUE VALORIZAR OS TIOS VERDADEIROS)E O PROFESSOR TEM QUE SER CHAMADO DE PROFESSOR.OBS: HA NÃO SER QUE SEJA IRMÃO OU IRMÃ DOS PAIS DO ALUNO.
    OSVALDO.

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  18. Programmer01:28

    Na minha sala, sou o único que não fala "tio(a)". E lá, não são apenas os professores(as). Os coordenadores(as), os supervisores(as), todos, exceto os alunos(as) são chamados de tios e tias. Não acredito nisso. Ele(a) não é tio(a) de ninguém.

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  19. Trabalho em escola,não sou professora e acredito que,quem trouxe essa mania de tio pra lá e tio pra cá,foram os condutores das peruas escolares.
    Os professores que eu conheci e conheço,não aceitam ser chamados de tio,mas chamam os outros funcionários da escola de tio.
    Os professores não são tios,os inspetores não são tios,as merenderas não são tias,as auxiliares de limpeza não são tias. Todos tem nome e digo sempre quando falo sobre isso ,você tem que saber o nome com quem você esta falando,numa eventual reclamação ,como irá dizer...reclamei com o tio de branco ? Temos que mudar essa cultura.

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  20. Bom dia Taís! Vim retribuir sua visita e agradecer por seguir meu blog. Lá está está o Pedro e agora o casal, dois amigos blogueiros que muito tem a oferecer na arte poética.
    Qto ao seu texto, concordo plenamente, É um tema oportuno e questionador. Pq tratar os mestres de tios? Acho isso uma falta de respeito, aqui no nordeste os jovens e adultos tem esse hábito de tratar os mais velhos de tio (a),qdo acontece comigo, eu pergunto, como tia? não conheço nem sua familia, e vem a resposta\; é que a sra é idosa, e então respondo novamente ;aos idosos e a qq pessoa, o tto correto é sr e srª, tia é algo muito íntimo e não conheço o sr.
    Eu já tenho 42 sobrinhos e adoro qdo sou chamada de tia; por eles...Lógico, mas por estranhos discordo totalmente dessa baboseira.

    Parabéns pelo post.

    Bjs e um dia azul pra vc!

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  21. Verdade, tia faz a pessoa parecer mais velha.

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  22. Anônimo16:41

    No Japão o tratamento é Tio, Tia ou Avô ou Avó. O grau não é relacionado ao parentesco, e sim a posição de respeito ( senão seria prima ou primo), essa relação que para ele é conhecida em casa, é apenas uma das formas de colocar o aluno em seu lugar de aprendiz. Quem optar por seguir a linha Paulo Freire de igualdade e " troca de informações" "sou educador não professor" e que o aluno é um igual, lembre-se como eles resolvem seus problemas. Exigir que ele entenda seu "Lattes" é um tanto quanto ilógico, lembre-se ele não é um acadêmico ou diplomado, ninguém nasce sabendo. Ponha-se em posição de igualdade ao aluno , tie tudo aquilo que lhe coloca em posição de respeito que ele conhece, porem depois não reclame dos socos e traumatismos cranianos.

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    1. Caro Anônimo, não entendi seu comentário, porém essa coisa de chamar professora de tia, será modernismo? Professor é professor, Juiz é juiz, doutor é doutor... Aqui, até flanelinha de rua chama a gente de tia! É bom? Por quê?
      Obrigada pela sua participação, mas gostaria que da próxima vez assinasse seu comentário para que eu pudesse lhe agradecer pelo seu nome e não por anônimo.

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