2 de fevereiro de 2012

AMIGO A GENTE ESCOLHE


 - Tais Luso de Carvalho


Nunca saio sem levar meu bloquinho de anotações, pois muitas vezes surgem fatos que valem a pena relatar. Pareço um perdigueiro: tô ali ó... na espreita.

Nas cidades pequenas todos se veem várias vezes e em vários lugares. Os estranhos se cumprimentam cordialmente. Acho isso encantador, um gesto civilizado. Nas cidades grandes, não: uns atropelam os outros, salve-se quem puder, ninguém está aí para um Bom Dia. E a faixa de segurança para pedestres é pouco respeitada; sempre tem um maluco de plantão que não respeita. Mas é o tal negócio: quem se acostuma com carne de osso, desconfia de filé. E como sou da capital, quando vejo certas coisas, em cidades pequenas, me causa surpresa. Mas educação existe. E encanta.

Nos dias em que passamos na Serra, Pedro e eu almoçávamos muitas vezes num restaurante cuja comida era deliciosa. Comidinha caseira. Nesse restaurante havia uma turminha que sentava sempre na mesma mesa: eram 6 homens. Deveriam ter entre 65 a 75 anos. Na medida em que iam chegando, pegavam o jornal, davam um olá - sem muita formalidade -, e se acomodavam. E naquela mesa rolavam os mais diversos papos sobre ações judiciais, precatórios, política, futebol e outras tantas coisas que viravam o assunto do dia. Menos doença; homens não falam muito de suas doenças. As mulheres é que pegam a linha e se vão, falam de todas doenças possíveis: suas e de suas amigas. Naturalmente fiquei feliz por constatar que tenho boa audição... Ouvia tudo.

Mas meu problema eram as fotos!  Com a máquina colocada, disfarçadamente, em cima da nossa mesa, eu clicava como louca. E meu marido me alertando para não fazer... Piorou: fiquei tão nervosa em fotografar sem ser notada, e apenas para tê-los como recordação, que fotografei tudo, menos as criaturas. Fotografei a mesa, o balcão, o assoalho, a porta... Que falta de competência!

Porém, a finalidade deste texto é poder contar o tanto que esse encontro era saudável e fazia bem  àquela turminha. Fiquei sabendo, através da minha bisbilhotice, que há mais de três anos eles mantém esse encontro diário.  Estiquei meu olhar e meus ouvidos para a conversa: tudo saudável e sem queixumes, todos integrados na reunião-almoço, um antídoto contra a depressão e a solidão.

Ninguém é feliz sozinho: ter amigos é necessário em qualquer idade: são eles que nos dão apoio, são eles que nos fazem sorrir, são eles que nos escutam, são eles que nos consolam: portanto, amigo a gente escolhe!

Que vivam assim por longos anos. Que dividam suas tristezas e multipliquem suas alegrias. Um dia desses, quero rever a turminha, quero sentir que estão vivendo, e talvez eu acerte a foto. Assim poderei vê-los e lembrar que em qualquer idade a gente deve negociar com a vida para ser feliz.

E foi bom eu ter adestrado o meu olhar  para ver certas coisas com muito mais otimismo; de ver que nosso aprendizado só termina quando a vida terminar. 



24 comentários:

  1. Tais,
    Eu sou perdigueira assumida e tenho já histórias e histórias que nunca publiquei no blog por falta de oportunidade ou por achar que essa ou aquela é melhor.
    Verdade que amizade é uma poderosa arma contra a depressão e velhice. Meu pai dizia que velho é o diabo, a gente só amadurece.
    Há uma frase que diz que "irmão é o amigo que Deus escolhe pra nós, todavia amigo é o irmão que o nosso coração elege."
    Beijokas doces e continue a bisbilhotar, que eu adoro ler!

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  2. Linda tua crônica e pintura da Sueli e muito verdadeira...

    Tão bom ter amigos e escolher encontrar-se quando queremos,sem obrigações formais,né?

    Daí vale a pena!!!beijos ainda praianos, mas quaaaaaaaaaaaaaase acabando, chica

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  3. Oi Taís!

    Li o seu blog por esses dias, mas não pude comentar
    Parabéns pela crônica sobre transplantes. O amor é realmente maior que tudo, amor de mãe então...
    Engraçadas as coisas que descobrimos quando paramos para observar e as historias que vêm de fatos comuns. Acho que a vida é isso né, uma coleçao de pequenas coisas que dão sabor à nossa passagem por aqui E a amizade é o sazon que não pode faltar..rs

    Beejo
    Deva

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  4. Taís,
    Você tem uma acuidade observatória muito boa e nos brinda com essa crônica quase inesperada. Inesperada porque é ponto pacífico que gente velha (nenhum preconceito, faço 66 na próxima semana) só se reúne para se queixar dos achaques, reumatismos, próstatas e afins. Abraços e parabéns, JAIR.

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  5. Tais, o olhar treinado ajuda a ver o que nem sempre se revela na correria das cidades grandes, é fato, mas conheço e sou fã da tua alta sensibilidade e perspicácia, amiga...nenhuma novidade pra mim...rs
    Que lindas cenas vc registrou - a máquina foi tua opositora, mas os seis homens estão guardados onde interessa pra tua alma...
    Tb estive na serra, e, depois de vários dias em cidade pequena, voltei com essa sensação que vc relata, gratificada por conviver e observar essa qualidade de uma vida que tb ;é escolha...quem sabe um dia não volto pra origem?...rsrs

    Um grande e saudoso beijo!

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  6. Aprender até morrer....e educação é linda e todos gostam....Quanto às fotos....o melhor é o telemovel....,
    enquanto se lê o sms...sai foto..rsrsrs.
    Admiravel a tela da Sueli....Por onde anda essa simpática amiga....
    Vou ler o comentário dela...
    Beijo

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  7. É... querida, amigos são nossas escolhas e tê-los é uma benção.Lindo o teu texto. Tens razão, fatos corriqueiros marcados pela simplicidade e sabedoria do bem viver as vezes nos surpreende, mas são belas lições de vida.Adorei!
    Que o teu final de semana seja abençoado e feliz. Bjs Eloah

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  8. Primeiramente, meus parabéns pela escolha da bela pintura de Sueli Gallacci, realmente linda e perfeitamente adequada ao texto!

    E agora meus parabéns pra você e esse seu faro incomparável, que rende as crônicas mais incríveis para nós, seus leitores! Adorei esta aqui, que confirma uma 'verdade' na qual acredito: amigo a gente escolhe. Sua crônica, por sinal, me fez lembrar de uma grande amiga, com a qual faço planos de um futuro semelhante ao dos senhores. Queremos ser vizinhas, pelo menos morar na mesma cidade, para nos encontrarmos diariamente e falarmos das coisas boas da vida. Doenças? Que nada, do lado de pessoas positivas nem lembramos que dói aqui ou ali... esquecemos de tudo, para pura e simplesmente sermos felizes!

    De fato, "em qualquer idade a gente deve negociar com a vida para ser feliz". E bons amigos tem tudo a ver com isso!

    Beijão, amiga querida.

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  9. Minha amiga adorei ler a sua crónica. Eu não levo bloquinho, mas levo também sempre comigo a máquina fotografica. A amizade quebra a solidão e ilumina o coração de todos nós.
    Bom fim de semana
    Beijinhos
    Maria

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  10. Taís, dizem que temos os amigos que merecemos, se são bons ou maus é porque o permitimos assim. Uma coisa tenho certeza,não vivemos sem eles!
    Parabéns pela belíssima crônica e nunca se esqueça mesmo de levar o seu bloquinho, nós seus leitores, agradecemos!

    Bom fim de semana! Beijos.

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  11. Fluidez, isso é que leva o leitor a concluir a leitura e vc faz isso bem e chegando lá ah! Parabéns.

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  12. Olá Taís,
    amigos são indispensáveis. Escolher amigos é coisa da maturidade, é uma coisa difícil. Que bom você tocar na questão do "falar do lado bom das coisas, da vida..."
    Bom te visitar e ler suas crônicas.
    Aqui no atelier todos gostam muito de você!
    Um beijo de todos, Loyde manda mais um beijo especial!

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  13. Muito boa a sua crônica, gostei muito.

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  14. Boa tarde amiga,
    Venho lhe desejar uma linda semana coberta de muita paz e amor!
    Sua presença é muito importante em meu cantinho, por esta razão veio lhe agradecer o seu carinho de sua amável visita sempre.
    Assim que poder acesse o link
    http://www.mariaalicecerqueira.com/2012/01/degustacao-do-livro-vida-nossa-de-cada.html
    e leia a degustação do meu próximo livro! Vida nossa de cada dia!
    Obrigada de todo o coração!
    Abraço amigo
    Maria Alice

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  15. às vezes nós não escolhemos os amigos.
    São eles que nos escolhem, nos identificam e nos aproximam.

    Cada um de nós também faz isso. Escolhemos os amigos e somos escolhidos.

    Hoje nota-se uma grande diferença do modo de ser e estar mesmo aqui nas nossas aldeias em que já não se rasgam bons dias. Passam de carro e todos tem pressa nem sei o que lhes deu. Cegaram por trabalho, dinheiro, apresentação...?

    Penso que é muito importante recomeçar nesses velhos hábitos de saudar as pessoas que conhecemos ou ocasionalmente encontramos.

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  16. Adorei a crônica e o blog também. ostaria de saber se podiamos comear uma parceria. Pra divulgarmos os nossos blogs. Obg.

    leiaessacronica.blogspot.com

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  17. Bom dia querida Tais..
    em outras palavras frio dia rsrs uma geada do cão aqui.. to teclando com os dedos duros rsrs
    tema interessante este e como é bom se a gente pode manter isso no decorrer da vida..
    eu tinha uma amigo desde os 10 anos de idade.. um que faleceu anos atrás pois ele desde aquela idade estava na cadeira de rodas.. e eu era o melhor amigo dele..
    muita gente não considero amigo, mas sim conhecidos..
    e gente que chegou a estudar com a gente.. eu como sou bom lembro nomes e sobrenomes e mesmo aqui sendo cidade pequena passam e nem se lembram da gente..
    as vezes passamos desapercebidos por não termos lá um belo emprego ou um carro do ano.. muitas amizades só chegam a nós assim.
    imagina eu que ando de viação canela srsrss sempre a pé.. não tenho celular e nem diplomas importantes pela parede.. sou quase um fantasma rsrs
    mas não sou eu o estressado que leva cano da namorada e depois de anos para na porta da casa aqui pra conversar.. enfim.. como diz um amigo..
    tem cada 2 de copas rss ou seja carta que não vale nada rss
    que sigam o caminho deles.. quem gosta da gente esta presente..
    aqui com 30 mil habitantes tem colegas de aula que veho 2 ou 3 vezes ao ano..
    mas tb vivem no carro.. as pessoas não caminham, não fazem um churrasco.. não existe mais isso.. e outra aqui não respeitam a faixa de pedestres.. uma vergonha..
    sou como tu.. muito bom de ouvido..
    capto tudo.. felizes deles que tu encontrou lá jogando conversa fora..
    isso que é bom.. cidade grande muito tumulto.. dificil acontecer isso né..
    beijão doce amiga.. lindo dia pra vc

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  18. Tais: adorei seu e mail e sua crônica sobre AMIGOS...

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  19. Nelson Gonçaves, em uma de suas canções, disse: "Amigo, palavra fácil de pronunciar; amigo, coisa difícil de se encontrar (...);"
    E você, Tais disse acima: "...Ter amigos é necessário em qualquer idade: são eles que nos dão apoio, são eles que nos fazem sorrir, são eles que nos escutam, são eles que nos consolam: portanto, amigo a gente escolhe!"
    Roberto Carlos disse: "Eu quero ter um milhão de amigos e, bem mais alto poder cantar (...)" E, se é que ele conseguiu, eu gostarian de saber como ele consegue administrar tantas amizades sem deixar mais de, não sei quantos amigos descontentes. Mas, sabemos que é simplesmente uma música e, nada mais que uma música.
    Um dito popular nos ensina: "Quem tem mãe tem todos os parentes e, também todos os amigos."
    Eu tenho poucos amigos. Chego até pensar, de vez em quando, que sou anti-social. Mas eu acho que a minha falta de amigos é a minha falta de mãe, cuja ausência e lacuna em minha vida data há mais de trinta anos.
    Sou relativamente solitário e há muito já me acostumei com isso, mesmo porque a minha família é pequena.
    Agora, neste momento em que acabo ler esta sua crônica, por sinal maravilhosa, muito bem escrita e elaborada, senti esta vontade de externar o que me veio à mente depois desta mensagem.
    Os amigos que você observou, os quais levaram-na a escrever a crônica relativa a eles, têm identidades próprias e verdades secretas reveladas somente à eles em comum. É um compartilhamento de experiencias que, possivelmente, vem lá das suas respectivas e próximas vivências de infâncias, lá experimentadas e também compartilhadas. E possivelmente são verdades secretas que somente para eles são abertas (em comum), talvez.
    Agora, eu vou pensar um pouco mais a respeito do exercício de procurar melhor meus amigos.
    Por fim, quero dixar depositado meus agradecimentos a você, pela sua dedicação e seriedade com que elabora seus trabalhos, por meio de sua fenomenal escrita e capacidade de ler a vida e mostrá-la para todos que a admira.
    Ler o seu trabalho é uma coisa que não nos deixa cansados.
    Eu acho até que, se você se propuzer a escrever um livro, da forma e maneira que só você sabe, acredito que será um trabalho muito bem aceito pelo público brasileiro. E porque não dizer por muitos outros povos.

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    1. Olá, Cícero, como está você? Nem sei o que dizer do seu comentário maravilhoso, e que me deixou muito feliz. Você captou tudo o que senti naquele restaurante e o que vi naqueles amigos. Agradeço muito suas palavras e sua sensibilidade. Você foi muito generoso, muito obrigada! Eu também não tenho muitas amigas, poucas, mas o suficiente. Cada um tem seu ritmo, sua maneira de preencher a vida e isso também precisa ser respeitado. Porém, amizades, mesmo poucas, fazem bem, dão uma 'segurada' pelo caminho. Tem gente que confunde amigos com conhecidos, não acredito nesse 'um milhão de amigos'... Poucos, mas confiáveis – é no que acredito dar certo.
      Volte sempre, Cícero..
      Grande abraço.

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  20. Muito obrigado e agradecido pelo retorno.
    Gostei e fiquei muito feliz.
    Deus lhe proteja. A você e a toda sua família!

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  21. Ninguém é feliz sozinho: ter amigos é necessário em qualquer idade: são eles que nos dão apoio, são eles que nos fazem sorrir, são eles que nos escutam, são eles que nos consolam: portanto, amigo a gente escolhe!

    Tais você escreve de uma forma tão amiga, tão igual, como se estivesse aqui conversando comigo. Não resisto em copiar a frase e devolver a você. Hoje eu creio que já ao amanhecer eu senti falta das pessoas amigas. Tínhamos nossos encontros semanais - até que fosse para falar dos filhos ainda pequenos - depois para entre outras boas coisas falar das estradas que os filhos foram - e depois falar de nós e darmos boas risadas. Hoje isto já não existe ou melhor existe sim, o grupo foi perdendo uma ou outra e outra entrando, e eu - parece que as grades fecharam diante de mim. Meus cinco últimos anos andam sedentos de voz.
    Grande abraço amiga.

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    1. Oi, Sonia, obrigada, querida, mas é isso que gosto, de escrever como se estivéssemos na tua sala, batendo um papinho sobre nossas vidas, sobre nosso país etc etc... Tudo muito direto, sem curvas. Que bom.
      Beijinho!

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