28 de maio de 2018

O NOSSO LADO AFETIVO




            - Tais luso

Há 4 anos compramos um carrinho de compras, sempre junto conosco cumprindo seu papel de carregador. Do supermercado vinha arriado, o valente carrinho, tinha até nome: Juquinha. Antes de sairmos eu perguntava ao Pedro:
— O Juquinha vai junto?
— Claro, pra que carregarmos peso?
Lá ia o Juquinha contente passear conosco, mas sabia que tudo tinha um preço: vinha lotado.  O empacotador queria colocar as mercadorias, mas eu não deixava, era quase uma ciência encher o tal carrinho.
Era preto com palavras escritas em branco que diziam Paris, Nova York, Londres - dezenas de vezes. Uma vizinha, certo dia, perguntou se íamos para o Aeroporto. Sim, Juquinha era muito exibido e tinha uma certa altivez.
Mas como tudo um dia acaba, essa semana chegou o dia da despedida, Juquinha envelheceu, estava estropiado, o pobrezinho. E saímos com ele pela última vez, atrás de um novo carrinho. Pensei em doá-lo a um morador de rua, coisa leve ele ainda aguentaria carregar. Mas fiquei pensando: doar o Juquinha que tanto nos ajudou?
Saímos de uma loja com um novo carrinho, mas Juquinha junto. Ao passarmos por um vendedor de livros usados, com sua banquinha na calçada, vimos que a solução estava bem perto. O vendedor de livros era um velhinho que gostava de arrumar seus livros. Pedro teve a ideia brilhante de oferecer-lhe o Juquinha!! O velhinho ficou numa felicidade sem tamanho! Pronto, dei uma última olhada para o carrinho e fomos embora. Caminhamos uns 20 metros e resolvi voltar para tirar uma foto de recordação. O velhinho o encostou na porta serrada da loja e bati a foto. Disse-me que cuidaria muito do carrinho.
Voltamos com o nosso novo companheiro que terá uma boa vida.
Com isso quero dizer que desapegos são necessários, mas doem um pouco. É difícil lidar com sentimentos, não sou apegada à matéria, mas sou grata a muitas coisas, até a um carrinho de compras!! Meus olhos, ao escrever essa crônica, revelam meu sentimento de gratidão.
Emoção a gente não espera, ela brota de algum lugar, sem dia, sem hora. Para alguns, um motivo banal, apenas um carrinho, mas depende da maneira que enxergamos a nossa história. Objetos também nos despertam sentimentos e por eles criamos  carinho.  Mexem com nosso lado afetivo.



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20 de maio de 2018

RECEITA DE FELICIDADE ?





            
             - Tais Luso

Estendendo o olhar pelas aldeias, dá para ver o tanto de tempo que se perde, o tanto de vida útil que se joga fora. Nosso tempo não é grande assim.
Acredito em lugares onde a vida possa ser mais saudável, as pessoas, mais felizes. 
Um jabuti ou uma espécie de baleia da Groelândia vivem 200 anos; um molusco bivalve, da espécie Arctica islandica viveu 507 anos. Morreu em 2006 nas mãos de cientistas, numa tentativa de descobrirem os segredos de sua longevidade. 
Fiquei estarrecida! Desperdiço a minha vida ao participar de discussões, de bobagens, mas quem sabe lá esse molusco ‘bivalve’ não vire meu Guru? Calado, viveu 507 anos! Por certo não era um 'barraqueiro'! Mas é injusto, essa longevidade deveria ser nossa – seres pensantes, inteligentes e criativos.
Nossa vida útil é curta, mesmo assim arranjamos mil fricotes para falar dos outros e de todos os seus porquês. Isso que é colocar a vida fora! 
Lembro de René Descartes - ‘Penso, logo existo’. Esse deve ser o problema da nossa vida tão curta!! A gente pensa demais e vive menos! Faz burrice. Mas quem sou eu para achar alguma coisa do grande filósofo? Deixa assim.
Geralmente o conhecido tripé dos atritos está na política, no futebol e na religião - e é o bastante para mostrar nossos desatinos e contradições.
Quem vive mais? Logicamente são aqueles que se desgastam menos emocionalmente. Todas as boas ou más ações revertem em doenças psicossomáticas que todos conhecem: aquilo que nosso  emocional cria e aceita, o corpo abraça com fé e amor! Sim, elaboramos nossas doenças com muita garra, muita disposição e muita burrice.
Vejo muita paixão em certas conversas: enquanto o sicrano defende suas ideias, o beltrano se mata para dar um contra. Assim terminam as amizades em prol de gente que não está nem aí para nossas aflições.
Não teremos nossa saúde de volta, nem pela acusação e nem pela defesa de coisa alguma. Vejo diariamente - via TV - discussões tão acirradas que uns meses depois algum deles está no hospital. Pudera!
O coração não perdoa quando a carga é forte demais. Os nossos instintos mais primitivos sobem à cabeça.  Estamos em ano de eleições e a  zorra por aqui é total. Não há moderação! Só há olho no poder.
Religião? Nesse quesito abraço a liberdade de escolha, apoio o que nos dá paz e vida feliz, seja onde for. Religião é para fortalecer, não para disputas ou para doutrinar o outro. Há vários caminhos,  cada um que escolha o seu.
O que precisa ser unânime é a Justiça com suas leis fortes e que sejam cumpridas para separar o joio do trigo, moralizar essa bagunça em que vivemos. Provar que aqui não é a Casa da Mãe Joana. 
Contudo, o único animal pensante que cravou uma bandeira na Lua, que inventou a informática que une o mundo inteiro em segundos e tantas outras tecnologias incríveis, vive em média de 80 a 90 anos, se tanto. 
Infelizmente, nossa espécie também inventou alguns horrores; brinquedinhos de gente grande, como bombas atômicas, os foguetinhos do Kim Jong-un e outros milhares de disparates mortíferos. Mas trabalhar em prol da felicidade mundial e colher grandes louros é uma grande façanha. A  felicidade vem   conta-gotas, mesmo diante de tanta amargura.
Não é incrível isso?


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Curiosidade: Molusco Bivalve






12 de maio de 2018

ASSIM SÃO AS MULHERES


              - Tais Luso


Hoje trago o lado hilário das mulheres.
Começo essa crônica com o item campeão das encrencas: Discutir a Relação!! Mulher volta e meia inventa de discutir a relação e escolhe os momentos mais inadequados, os motivos mais banais para armar uma barraquinha e começar com a interminável discussão, a mais improdutiva e insana das discussões. Nota-se que as mulheres têm muita facilidade para falar, um tal de desembaraço nato. Não será um dom, gente? Mas às vezes exageram, lembram uma metralhadora.
Os maridos que se aposentam conhecem uma nova realidade: a dona da casa é ela! Portanto eles não terão as asas domésticas que sonharam! Percebem?
As mulheres adoram brilho - do verbo brilhar. Chegam nos lugares com cara de cotidiano, mas amam brilhar! Se não brilharem pela beleza física, brilharão pelas suas ideias, nem que sejam meio estapafúrdias. Mas o brilho faz parte da existência feminina. Igual a uma roupa. Todas as vendedoras sabem o que quer dizer:

Quero uma roupa “cheguei”!

As mulheres  na direção de um carro são um caso à parte; respeitam os semáforos, mas assim que troca o sinal não esperam 20 segundos para as pessoas alcançarem a calçada, pois para elas  lei é lei se o semáforo mudou, não tem gentileza!  Eu já vi e ouvi coisa bem meiga, aos gritos:

Olha o sinal, infeliz!!
É a tua mãe!

É assim, tem lá suas exceções, sim, mas nesse quesito os homens são mais gentis com as mulheres.
Triste, também, é a Mulher Relatório, aquela que segue, que gruda no seu companheiro através do celular:

Onde estás, bem? Onde vais agora? E depois?

Também existem as mulheres carentes, é triste! A cor do esmalte precisa ser notada, o corte do cabelo elogiado.
Terrível é o fato da mulher idealizar um tipo de companheiro e casar com a intenção de mudá-lo, de torná-lo um cordeiro.  Não!!  Ele não mudará, querida!!! E nem nós!  O bom é ambos baixarem as bolas.
Também há um tipo de mulher que ao perguntarmos como ela está, ouviremos todas as suas dores, suas cirurgias, as dores da família, as dores do mundo! Essas mulheres existem, a gente sai do encontro com depressão!
Também tem aquele tipo de mulher sem noção de tempo: alguém a convida para dar uma volta no shopping, e a criatura entra no banho, vai lavar os cabelos, secar os cabelos, fazer uma escova… Impossível de aguentar!
Outra característica da mulher é a fobia por baratas, fazem um escândalo que mais parece briga de família, mas não;  é só uma conversa entre uma mulher e uma barata... Um mega escândalo.
A mulher, ao ver uma vizinha na rua, rapidamente vai ao seu encontro para saber das últimas novidades do condomínio. Depois, passa  adiante, a dizer que soube de tudo pela fofoqueira do prédio. Adoro isso!
Mas assim são as mulheres, encantadoras, inteligentes, corajosas, guerreiras, esforçadas, capacitadas, mas também sabem ser um pé no saco!
Mesmo assim, sempre estão em alta!
Aliás, estamosestou incluída por aí... Os meus defeitos são de estimação!



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Esse texto contém apenas o lado hilário feminino, nossas virtudes estão em várias postagens desse blog! 😊 No índice!

2 de maio de 2018

ASSIM SÃO OS HOMENS




                  - Tais Luso

Claro que não falarei mal dos homens, falarei neles como falei de nós, mulheres. Quero abordar o  lado excêntrico deles. 
Tenho constatado que quando os homens vão às compras, em loja de departamentos,  não conseguem ver nada,  levam tempo para visualizar a seção das calças esportivas.  Ficam zanzando e não encontram nada - coisa muito difícil! 
Também é difícil para eles perceberem a qualidade das malhas e das golas das camisetas.  Tudo é igual.
É difícil  aceitar a ideia de que uma camisa cor-de-rosa é bonita, dá suavidade aos seus rostos e que tem lá seu charme.  Mas não!! Nem pensar em camisa rosinha...
É irritante como o homem acredita nas vendedoras, não sabem como a mulher é esperta para vender, muito mais esperta que os antigos vendedores de enciclopédias. 
O homem só não se perde em campo de futebol, em livraria, oficina mecânica e lojas de automóveis.  Nos restaurantes escolhe apenas o vinho para combinar com o prato que a mulher venha a escolher. E deu!  Caso ela peça um vinho rosé ele entra em colapso, surta! É um Sommelier nato: rosé, não!  Por que essa birra com o vinho rosé? Por ser um vinho mais delicado, adocicado?
O homem vai a um aniversário e acha que sua presença é o melhor presente; a mulher difere, se preocupa com o presente ou com flores.
Mulher  quando avista  conhecidos numa festa, cumprimenta  com delicadeza e discrição. O homem já vai dizendo, e com muita propriedade: 
- E daí, canastrão, como tá essa força?
A mulher corta saladinha de rabanete como se fosse uma flor; o homem adora fatiar o churrasco com uma adaga degoladora!
O homem só pisa em hospital quando cai doente grave, e não é amigo de visitas, de se mostrar frágil. A mulher quer a força dos parentes e amigas.
Ao acabar um relacionamento afetivo o homem conta rápido com a solidariedade dos amigos para amenizar seu pranto:
Pô, cara, deixa de ser veado, parte pra outra, tá sobrando mulher no pedaço!
Enquanto isso a mulher se abraça no seu travesseiro ou chora suas  pitangas no ombro da amiga. Quer morrer! 

Eis aí nossos homens, viris, machões, mas amorosos e protetores.  Proibidos estão de chorar, de mostrarem fragilidade (culpa das mães) , mas quando choram, uma vez na vida e outra na morte, acabam com o coração de qualquer mulher! É o sinal mais puro da dor, um gesto que inunda a alma feminina de compaixão e de desespero. Mas, arregaçamos nossas mangas e mãos à obra!
Estamos juntos!!!


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...Que os homens não fiquem 'grilados' - suas  virtudes são muitas. 
Voltarei ao tema com  'Assim são as mulheres! ' 

Aqui:
Assim são as Mulheres




22 de abril de 2018

SOLIDÃO NA 3ª IDADE



         - Tais Luso


    Hoje trago um tema dolorido: é a solidão na 3ª Idade, e que pode muitas vezes tornar o nosso envelhecimento dramático. Não se sabe o quanto existe de solidão no mundo, mas muito influencia para nos vestirmos de solidariedade e não sermos adeptos daquele ditado chulo que diz: cada um por si e Deus por todos. Não concordo com isso.
    Li uma reportagem que aborda a solidão das mulheres do Japão. Grande número de japonesas idosas estão indo presas - propositalmente. Pelo fato de sentirem muita solidão, sem família e sozinhas, preferem a vida na cadeia.
   Ser solitário é uma situação muito penosa, principalmente para os idosos que perdem seus vínculos afetivos, como também os filhos que estão mais distantes, cuidando cada um de sua sobrevivência.
  Pois bem, os crimes cometidos por essas japonesas são pequenos. Roubam roupinhas, bacalhau, arroz, morangos, remédios... sendo, então, condenadas por furto. Ficam cerca de 1 a 2 anos presas. Perdem a liberdade, mas preferem ter com quem falar e serem cuidadas, pois não têm dinheiro para pagarem uma cuidadora particular. Uma dessas idosas, de 78 anos, relatou que a prisão é um Oásis para ela.
Tenho mais pessoas para conversar, fazemos alimentações nutritivas três vezes ao dia, aqui sou cuidada. (Bloomberg)
Outra idosa de 80 anos, roubou um romance de bolso, croquetes e ventilador de mão:
Gosto mais da minha vida na prisão. Há sempre pessoas à volta e não me sinto sozinha.
  Negligência com a saúde e a segurança é um comportamento típico dos idosos solitários. Sem o apoio dos familiares os idosos entram em depressão. Nessa fase da vida, nos deparamos com situações delicadas, como as perdas, afastamento de pessoas queridas, doenças e aposentadoria – para muitos. Com o tempo os idosos não  ficam sozinhos apenas pela falta dos parentes e amigos; vão ficando sozinhos  uns dos outros. A dor maior vira mágoa.
  Uma pesquisa da Universidade de Brigham Young, comparou estatísticas de mortalidade e constatou que a solidão é tão prejudicial à saúde quanto fumar 15 cigarros por dia ou ser alcoólico. Também está comprovado, em vários artigos científicos da Universidade de York,  que a solidão aumenta em 29% o risco de doenças coronarianas e em 32% de acidentes vasculares - AVC. (Correio Braziliense)
   A solidão massacra, consome, acaba com a autoestima, tira todo o encanto da vida.    Depois, leva a vida.


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14 de abril de 2018

UM DIA NA IGREJA...



                  - Taís Luso

Bem, há um bom tempo fui à igreja que meus pais frequentavam. Sentei no lugar em que eles sentavam, talvez na ânsia de conversar com eles e refletir sobre nossas vidas - quando ainda vivos  estavam. Fiquei eu lá, na esperança de que havendo outra vida,  nossos espíritos se juntariam por momentos. Era saudade. Muita!
Ali, sozinha, fiquei a refletir sobre a existência de outra vida. Gostaria de ver algum sentido em nascer, viver, criar vidas, mas ter a certeza da continuidade de meu espírito. Intriga-me o fato de tornar-me apenas uma memória. Sobre a fé não cabem perguntas. Fé é exatamente acreditar no que não se vê e no que não entendemos. Sim, isso é fé, assim aprendi. Mas sei, também, que fé é sentir, é querer.
Fiquei num silêncio respeitoso, que só encontramos num templo religioso, com seus mistérios e seus dogmas indiscutíveis. Contudo, respeito todas as religiões porque respeito as escolhas do ser humano.
Havia pouca gente na Igreja, meia hora faltava para a missa das 18:00 horas. Olhei para o lado e vi um confessionário – onde os cristãos confessam seus pecados e carregam suas penitências. Muitos voltam a repetir tudo igualzinho, porque sabem do perdão. A penitência pode ser quilométrica, mas o perdão não faltará.
Chamou minha atenção um velhinho que mal conseguiu chegar no confessionário. Se arrastava apoiando-se na sua bengala e com enorme dificuldade. Fiquei pensando na tristeza daquele ato; por quê? Que pecado teria cometido o pobre velhinho no crepúsculo de sua vida, solitário, e já tendo a despedida tão próxima? Que pecado teria ele a confessar; que penitência lhe seria dada? Senti piedade das suas amarras. Sou difícil de entender  certas coisas. Lembro o que meu pai disse quando falávamos no sacramento da 'confissão' e outras posturas da igreja o qual eu sempre questionava:
Filha, não podes mudar os dogmas da igreja, isso é rebeldia!
Não pai, eu não quero mudar nada, mas preciso entender os porquês!
Sim, eu era assim. Eu sou assim.  Preciso entender para decidir. O pobre velhinho poderia conversar com Deus, sozinho, na sua intimidade. Naquela altura da vida só caberia  compaixão, sem acusação. Por que não deixar que pessoas  frágeis comandem seu último voo sem cobranças? Levantei e fui embora, lembrei de meu pai,  ainda me sentia fragilizada pela perda.
Existe pecado maior do que a desigualdade, a morosidade ou a inexistência da Lei dos Homens? As penas são amenizadas ou nunca aplicadas devido a posição social, etnia, instrução, ideologias, cargos, apadrinhamentos ou a corrupção que lesa a todos nas suas necessidades mais básicas de sobrevivência. Quantos inocentes morrem em guerras por motivos geopolíticos, econômicos, religiosos etc. Parece que o ser humano nasceu para a guerra. Pois é, como tudo continua igual, a humanidade continua a mesma, também eu continuo com as mesmas indagações. E às vezes com menos esperança... Bem menos.

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8 de abril de 2018

O PAI NO HOSPITAL – Fabrício Carpinejar




     Amigos, trouxe essa crônica de Fabrício Carpinejar, por ser uma crônica de pura emoção. Conta da vida, de nossos sentimentos, de nossas carências, ao mesmo tempo que levanta nossas mágoas e todos os porquês que trazemos na alma, as vezes por uma vida inteira. Assim é o ser humano, cada um carregando sua mochila, e se possível  for, aliviando o peso ao longo da caminhada.


O PAI NO HOSPITAL 
- Carpinejar -

Estranhamente eu me vi contente quando o meu pai baixou hospital. É um sentimento feio para se confessar, mas foi o que aconteceu comigo. Não consigo definir se era felicidade ou alívio.
O meu pai sempre foi rigoroso comigo, de meias e duras palavras, sério, distante, inacessível. Demonstrava afeto e importância falando de dinheiro, se eu precisava de alguma coisa, mais nada, nunca descobri o que pensava e o que desejava, jamais expôs uma outra preocupação carinhosa.
O máximo de contato que tivemos se resumiu a seu aceno uma vez na rodoviária quando segui viagem para estudar na capital. O pássaro de sua mão voando tornou-se nossa recordação mais próxima. Quisera ter fotografado.
Já no hospital, pela primeira vez, eu poderia tocar em sua pele, sem medo, sem susto, sem que ele virasse o rosto, sem ser ofendido. Fiquei perto da cama o observando: uma rocha no mar que recebe a superfície afofada do líquen.
Ele, indefeso, apresentava uma nova autoridade. A autoridade do amor. A sabedoria da fragilidade: nem tudo passa, a amizade dos filhos, surpreendente e incompreensível, grudava-se na pedra.
Fiz questão de cuidá-lo. Ele que nunca me beijava, nunca segurava a minha mão, nunca me abraçava, nunca pedia um favor. E eu o beijei, eu o abracei, eu entrelacei os meus dedos em seus dedos enquanto dormia, eu segurei o copo d’água perto da boca, com a calma sôfrega do canudo.
Recuperei todo o nosso tempo perdido nas três noites de vigília. Quando ele se recuperou, voltou a ser o que era antes, fechado e distante.
Mas eu não voltei a ser a mesma pessoa.

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Publicado no blog de Carpinejar em O Globo  de  09/11/2017


Caracterizado por Luis Fernando Verissimo como "usina de lirismo", Fabrício Carpinejar tem prosa absolutamente desconcertante e confessional. Poeta, cronista, jornalista e professor Universitário nasceu em Caxias do Sul/RS, em 1972. Colunista de ZH e O Globo. Mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS e autor de 34 livros, premiados com o Jabuti, APCA e ABL, entre outros. Participa semanalmente do programa Encontro com Fátima Bernardes, da Rede Globo. É pai de dois filhos. Seus pais são poetas, Maria Carpes e Carlos Nejar, sendo o seu pai Membro da Academia Brasileira de Letras e Membro da Academia Brasileira de Filosofia.
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1 de abril de 2018

COMO SERÁ O FUTURO ?



                     - Tais Luso

Há pouco, recostada no sofá, fui mergulhando nas minhas memórias e comecei a pensar como a gente faz planos e sonha desde pequenina! Lembrei da época que vestia os sapatos de salto de minha mãe, me lambuzava de batom e colocava minha imaginação a funcionar. Eu também queria crescer, ser gente grande como ela,  estudar, trabalhar, casar, ter família, casa, dívidas pra pagar, problemas para resolver, empregada pra incomodar... Mas já que eu queria problemas, estava no caminho certo! 
Cheguei na fase que havia sonhado, mas com muitas perguntas, dúvidas e não mais ansiosa para que o tempo passasse... O tempo disparou, e hoje eu gostaria que o tempo parasse.
Minha geração brincava com jogos, bolinhas de gude, panelinhas, bonecas e quitandas onde se vendia tudo que havia na cozinha de nossas casas, era maravilhoso fazer pacotes para os amiguinhos ‘fregueses’! Mais tarde, aparecia minha mãe e acabava com a brincadeira, fechava o boteco no quintal  e voltava tudo para a cozinha desmantelada.
Tínhamos tempo para ler nossos gibis e todas coleções infantis. Como tínhamos tempo! E o tempo não passava; as férias não terminavam nunca! Bendito era o mês de março quando a vida recomeçava e o ócio acabava. Era o tempo que todos regressavam e se encontravam na escola. E nos abraçávamos com a maior saudades do mundo!!! 
Além daquelas brincadeiras corriqueiras, havia outra: os meninos brincavam de polícia e ladrão na vizinhança, haviam muitas árvores, o que ajudava a se esconderem. Mas naquela época a polícia sempre prendia os bandidos, não sabíamos o que era impunidade, não sabíamos o que era Habeas Corpus Preventivo! Haviam heróis. Hoje é vergonha e indignação. Brincávamos por imitação. Hoje a televisão ensina as brincadeiras mais sórdidas.
Mas a vida foi andando e fui observando o ser humano com seus novos costumes, seus viciantes brinquedinhos informatizados, sua visão de vida e seus sonhos esquisitos. Inventamos produtos sintéticos e tóxicos e conseguimos poluir o planeta inteiro e exterminar muitos animais com novos métodos.
Que fenômenos aconteceram para o mundo mudar tanto? Sem dúvida que muitas coisas evoluíram nas ciências e com a fantástica tecnologia que surgiu, mas das relações humanas não diria o mesmo, retrocedemos, nos tornamos muito competitivos e materialistas. Distantes uns dos outros. Em poucos anos formaram-se seres estressados, depressivos, ansiosos, frustrados e muito solitários. Alguns felizes, outros nem tanto. E outros, muitos infelizes.
Esse é o ser humano contemporâneo que não sabe mais conversar, mas virou um viciado em compartilhar suas vidas por inteiro.
Como será o futuro com toda tecnologia que está mudando a cada dia?

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hoje ...





23 de março de 2018

EXTRAVIO - FERREIRA GULLAR


                   
                         EXTRAVIO
     
               Onde começo, onde acabo,
               se o que está fora está dentro
               como num círculo cuja
               periferia é o centro?

               Estou disperso nas coisas,
               nas pessoas, nas gavetas:
               de repente encontro ali
               partes de mim: risos, vértebras.

               Estou desfeito nas nuvens:
               vejo do alto a cidade
               e em cada esquina um menino,
               que sou eu mesmo, a chamar-me.

               Extraviei-me no tempo.
               Onde estarão meus pedaços?
               Muito se foi com os amigos
               que já não ouvem nem falam.

               Estou disperso nos vivos,
               em seu corpo, em seu olfato,
               onde durmo feito aroma
               ou voz que também não fala.

               Ah, ser somente o presente:
               esta manhã, esta sala.


Do livro: Muitas Vozes – Ferreira Gullar - ed José Olympo 2013 11ª edição – pág 111

Ferreira Gullar (José de Ribamar Ferreira) nasceu em São Luís do Maranhão em 10 de setembro de 1930. Faleceu em 2016 no Rio de Janeiro. Foi escritor, poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor, memorialista, ensaísta brasileiro e um dos fundadores do neoconcretismo.

Forçado a exilar-se do Brasil, viveu em Paris e Buenos Aires de 1971 a 1977. Escreveu em 1975, em Buenos Aires, seu livro de maior repercussão, Poema Sujo, publicado em 1976 e considerado por Venicius de Morais, o mais importante poema escrito em qualquer língua nas últimas décadas.

Com inúmeros livros publicados, também recebeu vários prêmios de importância, como os prêmios Fundação Alphonsus de Guimarães, vários Jabuti, prêmio Moacir Scliar, Prêmio Camões - 2010, prêmio Machado de Assis, considerado da mais alta distinção concedido a um autor de língua portuguesa. 
Ocupante da cadeira nº 37 da Academia Brasileira de Letras.

Em seus últimos trabalhos Gullar começou a demonstrar uma preocupação com a morte, com os amigos que se foram, mas ao mesmo tempo começou a equacionar-lhe o sentido profundo sem fazer dela uma angústia existencial”. (Ivo Barroso)


"A Arte existe porque a vida não basta"
"O importante não é ter razão, é ser feliz!"


17 de março de 2018

INTROMISSÃO INCOMODA !




          - Tais Luso

Por certo, todos nós alguma vez na vida sentimos um certo desconforto ao invadir ou ser invadido na nossa privacidade. Por vezes, avançamos tão forte na vida dos outros que não pesamos o desmoronamento de amizades e de afetos. Que desgraça.
Certas coisas incomodam muito, e algumas delas tiram o encanto dos bons momentos que poderíamos passar com amigos e parentes. A intromissão na vida do outro dá rolo! Sempre deu e sempre dará.
Podemos ser algozes como também as vítimas. Quando a poeira baixa, ainda ficam resquícios de mal-estar causado pela invasão. É a tal coisa, pegamos sarna para nos coçar, e sem necessidade. E o pior é que reincidimos no erro.
O tempo passa e ainda me surpreendo com certas atitudes. Procuro entender o que se passa, será mais uma das invasões ou será um ledo engano?
Cada vez mais a intromissão - um ato impetuoso que sai como se fosse a única verdade -, faz parte do nosso cotidiano.
Muitas brigas entre amigos e familiares se originam desse gesto impensado, de dizer tudo o que se quer sem nada medir, e com a intenção de corrigir a vida do outro. Mas alguém pediu?  Um dia o intrometido poderá dizer que fomos ingratos por não ouvir seus conselhos, mas na realidade não foram pedidos.
Quando ocorre de um conselho partir de mim, logo vem uma sensação de arrependimento pela burrice a qual me permiti entrar.
Muitas brigas e desentendimentos se dão graças a essas ajudinhas inofensivas, mas que mexem com o ego de cada um.
O grande alerta, nessa selva em que vivemos, penso ser a observação. Partindo do pressuposto que podemos vivenciar situações muito desagradáveis, vale a pena dar uma refletida. Vale a pena perguntar: mas alguém pediu alguma coisa? Alguém pediu algum conselho? Oh, chatice!
Está aí uma das virtudes do ser humano: poder zelar pela sua privacidade.
É pura felicidade. É paz.



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